quarta-feira, 25 de janeiro de 2017

Uma aventura no que, turismo não é...

Em 2015 visitei Búzios, litoral fluminense.
De há muito ouvia falar do lugar como um centro badalado, cheio de turistas estrangeiros e onde, lá nos anos 60, Brigitte Bardot, a estrela francesa de sucesso na época, passava suas férias de inverno europeu.
Entre as tantas recordações, a cidade ganhou até uma escultura da figura da sensual atriz francesa.
O litoral fluminense, a Região dos Lagos, foi notícia nos anos 60/70. Em Cabo Frio, por exemplo, na Praia dos Ossos, em 1976, “Doca” Street matou a tiros a namorada Ângela Diniz, socialite mineira que teria se interessado por uma moça alemã que conhecera na praia. Eram tempos de revistas semanais cariocas que vendiam esse mundo, então glamoroso, das terras fluminenses.
Mas volto à minha visita a Búzios, em 2015.
Para percorrer os 44 km entre Rio das Ostras e Búzios, gastei quase uma hora.
Começa-se pela RJ 106, entrando depois na RJ 102.
A viagem foi um jogo de vídeo game. Sem acostamento ou sinalização, enfrentei ultrapassagens proibidas, entradas e saídas da pista sem o menor aviso e rapidez na direção para escapar dos buracos.
Enfim na cidade, busquei na praia central a estátua de Brigitte Bardot.
- Danificaram senhor. Foi para o conserto há uns seis meses.
Foi a explicação que me deram.
As ruas sujas e a gastronomia com nada de especial. Como nada especiais eram as fachadas das lojas, com seus painéis de anúncios, de grande poluição visual.
Búzios.
Em 2016 a aventura foi visitar o que os fluminenses chamam de Região Serrana.
Para chegar à Nova Friburgo, a partir de Rio das Ostras (e todos os que vêm da Região dos Lagos) utiliza-se a RJ 142, conhecida como Serramar. Trata-se de uma rodovia com 61 km de extensão e que liga os municípios de Casemiro de Abreu e Nova Friburgo. É considerada como “Ecoestrada”, por percorrer os contrafortes da Serra do Mar.
Mas, de novo. É uma estrada acanhada, claramente sem planejamento ou obras de infraestrutura mínima. Não tem acostamento, não tem guardrail ou placas de sinalização. Sobre a não existência do acostamento, não é uma força de expressão. O asfalto acaba na maioria das vezes numa canaleta coberta de mato ou simplesmente num barranco de onde se pode ver o fundo dos vales.
Se não apresenta tantos buracos, em alguns trechos encontrei bancos de areia no meio da pista.
- Foi uma chuvarada forte em outubro que trouxe o desmoronamento para a pista. E não removeram a terra até hoje.
Essa a explicação de um nativo sobre aqueles murundus no meio da pista estreita. À noite aquilo se transforma numa armadilha digna de Indiana Jones.
Lumiar é uma vila turística no km 41 da estrada Serramar.
O local tem uma pequena praça cercada de alguns restaurantes honestos e seu entorno tem vários pontos de rios que servem para o que os locais chamam de “banho de cachoeira” ainda que possam não apresentar uma queda d’água expressiva. A paisagem é de muito verde.
Chegando à área urbana de Nova Friburgo, o distrito de Muri é tido como um centro gastronômico local. Mas as dificuldades permanecem.
A rodovia que atravessa o distrito segue sem acostamento. As placas indicativas para os restaurantes são poucas e não claras. E se é difícil estacionar nos restaurantes, andar a pé beirando a estrada é uma roleta russa.
Mas, mesmo sem acostamento, trevos de conversão e acesso ou placas indicativas de atrativos turísticos (aquelas na cor marrom) o local é mais bem arrumado e mais civilizado.
A área urbana de Nova Friburgo é comprida. O centro comercial é limpo e arborizado. As casas de pasto são simples e honestas.
No distrito de Muri foi possível provar uma truta, também honesta, numa das casas do circuito gastronômico.
As pousadas ficam no que pode ser considerado o subúrbio da cidade. De novo, em estradas sem acostamento, sem placas indicativas claras e com grande dificuldade de acesso vez que a falta de acostamento, de trevos de acesso ou de simples limpeza da beira da estrada, dificultam a vida do usuário.
Mas, e as pessoas?
Ah, sim.
Pousadas e restaurantes geridos por pessoas agradáveis, hospitaleiras e quase conformadas com o infortúnio da gestão pública de seu estado, o Rio de Janeiro.
Sobre as placas de sinalização, por exemplo, me disse uma empreendedora local, que o DER-RJ tirou todas as placas das pousadas da beira da estrada e cobrou multa para a devolução delas. Não colocam sinalização oficial e tampouco conservam as rodovias.
Sinal de celular nas estradas? Risadas.
Socorro mecânico? Resgate e assistência médica?
Risadas.
Em plena passagem de ano, com aumento do tráfego, nada de policiamento nos trechos pelos quais rodei. Nenhum mesmo.
Em contrapartida, se comparados ao estado de São Paulo, os preços são muito mais acessíveis.

Não é um lugar para se voltar, pelo menos até que se conserte o mal que os últimos governantes deixaram, ainda que sua paisagem seja agradável e sua gente hospitaleira.

terça-feira, 5 de maio de 2015

A UBER e o futuro

Uma juíza revogou ontem, 05\05\2015, a liminar que havia sido concedida pela 12ª Vara Cívil da cidade de São Paulo determinando a suspensão do UBER, um aplicativo para chamar serviços de transporte individual por carros. A liminar notificava ainda as empresas Google, Apple, Microsoft e Samsung para que tirassem o aplicativo de suas lojas virtuais, sob pena de multa diária de R$100 mil em caso de desobediência.
A liminar revogada atendia à ação impetrada pelo Sindicato dos Motoristas e Trabalhadores nas Empresas de Táxi do Estado de São Paulo, que alega concorrência desleal, insegurança ao usuário e o não pagamento de impostos e demais taxas a que estão sujeitos os serviços de táxi oficial.
Mas o que vem a ser a UBER?
A empresa, uma startup na área tecnológica, foi criada em 2009 pelos estadunidenses Garret Camp e Travis Kalanick.
Em sua gênese a UBER deveria ser um serviço de transporte em carros de luxo. Para isso só aceitavam cadastro de carros como Mercedes S550 e outros do gênero. E exigiam do motorista algumas condições de trato, comportamento e conhecimentos. Em 2010 lançaram o aplicativo para iPhone.7 e Android.
Em 2010 e 2011 a UBER recebeu de anjos investidores e venture capitalists, cerca de 50 milhões de dólares.
No ano seguinte, 2012, novos avanços.
Seus serviços chegaram a Londres, foram ampliados para chamar táxis convencionais na cidade de Chicago e passaram a oferecer serviços de táxi aéreo, por helicóptero, entre Nova Iorque e Hamptons por US$3 mil.
A UBER chegou ao Brasil em maio de 2014, na cidade do Rio de Janeiro, de olho na Copa do Mundo. A tarifa mínima para se utilizar os serviços UBER em 2014 era de R$13,50. Em comparação com os serviços convencionais de táxi suas tarifas eram mais altas. A bandeirada (tarifa básica) era cobrada a R$5,40 contra R$4,80 dos taxis convencionais. O quilometro rodado custava R$2,76 contra R$1,95 do táxi comum.
No final de junho de 2014 o serviço chegou a São Paulo.
A UBER não é pioneira no Brasil no uso do E-hailing que é como se denominam os aplicativos com localizadores GPS para chamar serviços de táxi. Já existiam vários aplicativos em uso para chamar táxi no país como o Easy Taxi e o 99 Taxi, os mais conhecidos.
Qual é então a questão?
Trata-se de um ponto de vista legalista, ou seja, aqueles que pagam licenças específicas para oferecer esses serviços reclamam desse tipo de concorrência que nada paga ao poder público para fazer a mesma coisa. Faz sentido, uma vez que os aplicativos acima citados servem apenas para chamar táxis registrados como tal nos municípios. Já a UBER aceita inscrições de particulares tendo como exigência apenas o preenchimento das características do carro e do motorista.
Mas faz sentido também do outro ponto de vista: o dos avanços tecnológicos. Sabemos todos que de há muito a sociedade perdeu, por exemplo, o hábito de escrever cartas e postá-las nos correios. As tarifas mais baixas dos telefones – mesmo antes do celular – contribuíram para isso. Mas foi a Internet, a partir dos anos 1990 que selou de vez o fim das cartas em papel, via correio. A possibilidade de se mandar email em tempo real para o exterior ou para um estado distante dentro do país nos fez esquecer as cartas. Hoje então, com tudo disponível nos smartphones, nem se pensa mais em papéis para comunicação com aqueles a quem amamos ou com quem trabalhamos.
E as fotografias em filmes celuloides e reveladas em papel?
Bem, a Kodak não entrou na Justiça para interromper a fabricação de câmeras digitais. Quando os celulares se configuraram em câmeras de nitidez impensada a Kodak já estava de joelhos com seus filmes e papéis de revelação. Tampouco os correios reclamaram da Internet. E Kodak e Correios são dois símbolos sofridos da transformação promovida pela tecnologia.
Claro, no caso dos táxis existem alegações legais, coisas e tais. Faz sentido. E sempre fará. Mas é do avanço das tecnologias. Para o bem e para o mal.
Quando surgiu a máquina a vapor e os trens de carga e passageiros os criadores de cavalos ficaram, com razão, preocupados. Com a chegada dos automóveis, muitos gritaram que era o fim do cavalo. Sim, pode ter diminuído o volume de animais no mundo. Mas o cavalo não desapareceu.
Nos anos 2000 há uma tendência do uso de motocicletas para o pastoreio de gado, seja ele vacum ou caprino, em regiões que vão da Austrália ao sertão do Nordeste brasileiro.
Sem entrar na questão do futuro de longo prazo e das energias esgotáveis, volto à UBER.
Trata-se de uma tendência para diferentes serviços oferecidos à sociedade. Aos poucos eles serão regulamentados. E surgirão em moda passageira ou para ficar. Pensemos nos Foodtruck. Os restauranteurs não se abalaram. Trataram de entrar no clima ou investir eles mesmo em unidades móveis como apêndice de suas casas. Poderia ir longe no tema, mesmo sem entrar na questão do fim da venda de bilhetes aéreos através de agências. Quem precisa das agências com as ofertas das cias aéreas diretamente na Internet? Não se vai conseguir impedir é que novos serviços apareçam cada vez mais. É irreversível.
Quanto à segurança dos serviços, tudo vai se arranjando. As pessoas vão aprendendo a ter mais cuidado e as empresas a oferecer sistemas mais seguros.
Os donos do mercado vão reclamar. É justo. Mas terão que se adaptar. Terão que criar. Terão que competir.

É o futuro. Sempre chegando.

sábado, 21 de junho de 2014

Personagens do bairro

1.       Rafael, nome fictício, é um baiano cuja idade deve variar entre 40 e 55 anos. É magro, poucos cabelos amarrados num rabo de cavalo fraco, às mechas fracas. Sua companheira inseparável é Lili. Ela é uma poodle simpática sempre descansando à sobra das pequenas árvores da rua ou na porta de uma das lojas. Ninguém reclama de sua presença. Rafael e Lili passam os dias, no horário comercial, ali naquela calçada da rua mais movimentada do bairro. Ele tem um comércio de livros usados. Sim, um sebo em plena rua. Seus títulos são sempre bons. Ele ganha muitos livros daqueles que precisam de espaço em suas casas. Mas só põe à venda as coisas boas. Sim, vai de atlas geográfico até Machado de Assis. Passa por Dan Brown e Frederick Forsyth, que ele considera os mais populares. Rodam ali naquelas ripas pregadas na parede onde ele equilibra os livros e no pedaço da calçada onde os distribui autores como James Joyce, Mark Twain, Dickens, Victor Hugo, Mann, Shakespeare, Balzac, Saramago, Veríssimo, Drummond, Paulo Coelho, J Amado, J de Alencar, C Meirelles e não acaba mais. No chão é possível encontrar também Zibia Gasparetto e DVDs originais. Sempre bons filmes. E Rafael está sempre lendo. Mas nunca vi quais os títulos de sua leitura. E a rotina segue com frio ou no calor insuportável do último janeiro. Ele e Lili, ali, firmes.
Rafael tem um velho Passat, daqueles que fizeram sucesso no Iraque. É ali que guarda, leva e traz seu comércio. Ele poderia fazer outra coisa que lhe desse um ganho melhor. Ou poderia simplesmente vagabundear lá pelo seu bairro. No entanto escolheu algo que, com justiça, considera nobre. E gosta de falar com aqueles que se interessam pelos seus produtos ou fazem encomendas. Sim, ele aceita encomendas. É um sebo a céu aberto que traz charme para as lojinhas da rua. Não é um sujeito comunicativo. Tampouco simpático à primeira vista. Ele não tem o sobrenome Herz, da família que empreendeu na Livraria Cultura. Mas isso é só um acidente de percurso. Ele é filho fora do casamento de um baiano que morreu no ano passado e muito pouco parece ter-lhe dado. E por conta disso ele teve que ir até o sertão baiano, 2.018 km de distância, levando Lili, para assinar o inventário junto com os irmãos legalizados. E espera receber seu quinhão do sítio que o pai deixou. Tivesse tido outras condições na educação e os Herz teriam um bom concorrente hoje. Falo dele porque ontem o encontrei triste com sua Lili puxada na guia, magra e com visível queda de pelos. Explicou que está aflito porque a parceira está com uma diabetes avançada, descobriu há dias. E que a insulina, como a ração especial são caras. Também, explicou de novo, a vida toda ela comeu por ali o que lhe davam arroz, feijão, pedaços de frango e até batata. O veterinário explicou que isso pode ter agravado. Desejei o melhor para os dois e dessa vez nada comprei. Segui pensando que o livreiro de rua terá uma jornada ainda mais sofrida com a perda da companheira que, oxalá, completará dez anos em agosto.
2.       Amanda é uma moça baixinha entre 18 e 22 anos. Tem um rostinho bonito com um pouco de acne em cada uma das bochechas. E a conheci ali perto dos caixas eletrônicos do banco, onde ela ficava para auxiliar os clientes. E conversávamos sempre que lhe tinha que pedir para carimbar o meu bilhete do estacionamento para o devido desconto no pagamento. Amanda mora em Osasco e tem uma jornada longa todas as manhãs entre trem e ônibus para chegar ao trabalho. Perguntando sobre seus estudos, ela disse que aguardava ser contratada pelo banco para então “fazer faculdade” e tentar carreira naquela instituição. Precisava do magro salário que lhe pagavam para ficar das onze às dezesseis horas atendendo a idosos confusos e trabalhadores que precisam sacar seus salários também minguados. Um dia ele se disse preocupada. Explicou que estava à espera de um avaliador que a entrevistaria sem se identificar. Era o sujeito que tinha o poder de vida ou morte sobre seu emprego. Eu a tranquilizei: bobagem, você é boa no que faz. Mas tive certo arrepio. Amanda é do tipo bem ingênuo, quase simplório, ainda que amável e prestativa. E naquele momento do nosso diálogo ela me disse: olha vem vindo aí o Alberto. Ele é um assistente de gerencia da agência. Ele se acha importante e não me cumprimenta. Uma vez pedi uma explicação para ele e sua resposta foi grosseira, disse que eu sou burra e não sou funcionária do banco. Pode? Não, não pode, disse eu. Então o Alberto passou. Altivo, dono de seu poder de polichinelo. E não olhou para Amanda. Uma acintosa agressão. Coisa de almas cruéis. Então, vez em quando eu perguntava à Amanda sobre o entrevistador oculto. Nada ainda, dizia. O cara se identifica depois do diálogo. Na semana passada, depois de dias sem ver minha amiga dos caixas eletrônicos, perguntei à moça que a substituía por onde andava Amanda. Ela saiu, respondeu a moça. Em que posso servi-lo?

Fiquei triste. O perfil de Amanda não parecia adequado à dose de agressividade que se nos exige o tal do mercado. Ela não foi efetivada na instituição bancária. Poderia atrapalhar nos rendimentos do banco, que com tanto suor ganha migalhas no Brasil. Mas nada me tira da cabeça de que o tal do Alberto, cabeça alta e desprezando a nossa menina tão singela, tem a ver com isso. 

quarta-feira, 27 de novembro de 2013

Café & Antropologia

Em janeiro deste ano escrevi neste blog matéria sob o título Reflexões sobre a globalidade na qual abordei a questão da inserção forçada de novos costumes nas diferentes sociedades. Falei então da invasão da Coca Cola na China e na África, onde interferiu na milenar tradição do consumo do chá. No Norte africano os Tuaregues foram assediados até com brindes como geradores portáteis e geladeiras para “tomarem gosto” pelo refrigerante negro. Dizem que o chá quente tem efeito na resistência desses povos nômades ao calor do deserto. Já a Coca Cola manda mais sódio para o organismo deles. Mas o que fazer? Até motos e quadiciclos vêm substituindo os camelos as areias saarianas...

Vejo no noticiário econômico desta semana que o Brasil entrou no grupo que “ajuda a China a estimular o consumo de café”. Até posso ver um rosto simpático como aquele da bióloga brasileira que, ativista do Green Peace, foi presa na Rússia, dizendo com algum espanto:
- Por que eles têm que gostar de café, Santo Deus? Não consomem chá há milênios e estão bem?
Ah, minha doce ativista, porque na lógica do mercado eles representam uma colossal arena sem tradição de consumir café, mas com todas as condições para se transformar no maior consumidor global dos derivados da Rubiácea.
O consumo dos Estados Unidos é, em 2013, de 23,5 milhões de sacas de 60 quilos\ano. Já a China, de acordo com previsões tidas como otimistas, deve consumir 2,8 milhões de sacas em 2020.
Segundo a Organização Internacional do Café, em 2012 os chineses consumiram 1,1 milhão de sacas ou magras 25 gramas por habitante.
Os executivos da área cafeeira são otimistas e miram o exemplo do Japão que, com costumes relativamente parecidos em relação ao chá e alimentação sem gorduras (os chineses têm maior consumo de frituras e gordura animal), aderiram ao consumo do café e são hoje o quarto país em consumo do produto atrás apenas dos EUA, Brasil e Alemanha.
Para Bunco Wong, presidente da Associação Chinesa de Cafés Especiais (CSCA, na sigla em inglês) os jovens são a grande esperança nessa virada de consumo uma vez que são mais abertos aos costumes ocidentais. Nos grandes centros urbanos do país cresce o número de cafeterias sempre cheias de jovens seguidores do modismo ocidental do capitalismo-comunista.
Segundo Wong, 97% da população chinesa consomem chá e apenas 7% “têm experiência” com café, o que não se traduz em consumo diário. Já os que compram cafés especiais chegam a 3%.
Verdadeiras operações de guerra vêm sendo montadas pela CSCA para “ensinar” os chineses a apreciar um bom café. Entre as justificativas para essa interferência cultural e econômica está a de que o consumo de café deve gerar boas possibilidades de emprego para um contingente de quatro milhões de jovens que saem das universidades todos os anos.
Então. Economistas e engenheiros recém-formados vão virar balconistas de franquias da Starbucks?
As primeiras cafeterias foram abertas em Hong Kong no final da década de 1980 e o costume, devagar, migrou para o continente.
Os chineses, de acordo com Wong, gostam de café muito doce e misturado com muito leite. Muito pouco chinês esse perfil.
O jovem Bunco Wong esteve recentemente no Brasil e gostou do trabalho da Associação Brasileira da Indústria do café (Abic), sobretudo no que diz respeito ao Programa de Qualidade do café (PQC).
Entre os temas das conversações dois pontos ficaram no horizonte para brasileiros e chineses: organizar um instituto na China para processos de colheita, pós-colheita e classificação de grãos. Já os chineses, em contrapartida, têm interesse em desenvolver novas máquinas de café expresso e coloca-las no Brasil.
Assim funciona o mercado. Quem produz tem que buscar consumidores. Essa lógica impulsionou a navegação e os descobrimentos na Idade Média e assim tem sido.
Não se trata de um simples processo de distribuição, mas sim, de uma interferência sócio antropológica.
Se o cinema estadunidense influenciou diferentes sociedades mundo afora desde os anos 1930, nem de longe podemos comparar esse fenômeno com essas mudanças radicais em costumes alimentares como vem ocorrendo desde meados do século vinte.
Sim, porque não se trata de apenas oferecer um produto, montar lojas ou fazer promoção. Trata-se de verdadeira lavagem cerebral no sentido de tornar comuns práticas alimentares que ferem as tradições de nações e levam a mudanças em toda a cadeia, desde a produção no setor primário até o consumo pelas novas gerações.
Na matéria de 16 de janeiro de 2013, falei aqui neste blog sobre a força das cervejas em países como Portugal, Espanha e Argentina, derrubando o consumo do vinho. Da mesma forma o tabaco invade regiões do mundo onde a legislação não tem preocupação com a saúde da população. Ou vendem Coca Cola para os Tuaregues.
Nunca duvidei de que a livre iniciativa e a livre economia, com regras básicas e fiscalizadas pelo Estado, é que trazem crescimento, progresso e fartura para as nações.
Mas tudo tem um preço.

Fonte: Valor Econômico, Carine Ferreira, 26\11\13        

sábado, 23 de novembro de 2013

Astros mirins e sensualidade

Abro a página da UOL e vejo que a atriz Abigail Breslin fez ensaio sensual entre espumas e lençóis, aos dezessete anos. Breslin foi indicada para o Oscar em 2002 por seu papel como filha do personagem principal em Sinais atuando ao lado de Mel Gibson.
Mas a menina ficou mesmo conhecida como a irresistível personagem do filme Little Miss Sunshine, em 2006. Não resisti. Recorri a Wikipédia.
Abigail Kathleen Breslin nasceu em abril de 1996 em NYC, filha de pais que trabalham com Telecomunicações e TI. Tem dois irmãos que também são atores, mas nada consta deles sobre trabalhos diferenciados como os dela. Sobre a menina não se pode dizer que seja uma atriz diferenciada. É certo que ela apresentou um jeito muito espontâneo na sua personagem em Miss Sunshine. Talvez tenha sido mais convincente como a órfã em Sinais.  
O que me fez buscar mais notícias sobre a menina foi a história de querer mostrar seu corpo ou “ousar mais” para o público. Ela não é a primeira. Mas me intriga mesmo assim.
Há dias vi num telejornal a atriz Miley Cyrus, principal figura da série da Disney Hannah Montana num clipe no qual, nua, lambe sensualmente um martelo. E a notícia foi longe, mostrando o comportamento abusado na menina em outros shows.
Cyrus, nascida Destiny Hope Cyrus, sabe bem o que faz. É um jogo mercadológico. Quer ser vista como mulher. E mulher para instigar os desejos humanos. Masculinos ou femininos.
Vi o clipping no qual lambe o martelo. O roteiro do vídeo a mostra sentada e balançando numa bola de aço, dessas de demolição. Ela beija também a corrente que prende a bola. E derruba as paredes no refrão da música. É bonita e se reveza entre a nudez e calcinha e sutiã. Sempre usando coturno.
Nem sempre artistas mirins sabem lidar com a fama. Drew Barrymore foi um exemplo. Depois do sucesso de ET, o filme de Spielberg (1982) no qual faz a irmã do personagem principal ela viveu péssima fase envolvida com álcool e drogas. Teve muita sorte na recuperação e hoje é uma atriz respeitada em Hollywood, em comédias e dramas.
Outro nome mirim famoso é Macaulay Culkin, nascido Macaulay Carson Culkin em 1980. Depois do sucesso da sequência de “Esqueceram de mim”, o ator viu-se envolvido em problemas que começaram em casa. Seus pais disputaram, literalmente, a tapa, sua fortuna de 17 milhões, à época. Crescido e moço, Culkin não se revelou tão bonito quanto na infância. E menos talentoso.
Seu nome na mídia apareceu mais ligado a escândalos, como o suposto envolvimento sexual com Michael Jackson e sua prisão por porte de maconha e anfetaminas.
A trajetória de astros mirins nunca foi linear.
Para os atores, quando a cabeça é boa ou bem orientada, a escada é menos íngreme uma vez que eles podem ir mudando de papéis para personagens mais velhos. Assim um ator pode ir da infância até representar como avós e sábios anciões. Mas nem sempre é linear.
Para os astros mirins de muito sucesso, a adolescência e a entrada na maturidade podem se revelar uma armadilha. Sua graça infantil pode não se manter aos quinze anos. Eles podem estar gordos ou mesmo sem charme. Pode também ocorrer um hiato na adolescência e eles voltarem a ter charme aos vinte anos. Ou simplesmente podem não ter o talento e a espontaneidade da infância.
Esse risco pode também ocorrer no ocaso da carreira, quando eles devem passar a interpretar pais e avós de outros galãs. Mas essa é outra história.
Envolvimento com drogas parece estar na razão direta das estruturas familiares e de como tratar com o sucesso tão prematuro.
Já a necessidade de mostrar ao público que “agora sou sensual” parece mesmo uma necessidade de virar adulto, de sair daquele casulo da virgindade, cair no mundo. A questão é a dosagem disso.
Para os artistas da música esse caminho é ainda pior. Eles têm que mudar o repertório e a imagem. Nessa perspectiva está a mudança para um público que, acreditem, pode ser o mesmo de quando tinham seus oito anos e cantavam para outras crianças de também oito anos.
Essas mesmas crianças, quando chegam aos dezoito anos, gostam de sons melhor definidos do que aqueles pops do tipo Sandy & Júnior ou Hannah Montana. E os artistas têm que fazer a sua opção pela nova linha de sua música e pelo visual mais adulto. Em geral mais sensual.
Trata-se de um reposicionamento de produto que deve ser trabalhado ao longo da carreira. Na medida de seu amadurecimento o astro da música deve ir repaginando sua imagem e produtos de modo a tornar quase natural a sua mudança e a consolidação de “nova” carreira.

Miley Cyrus, com certeza, não lambeu aqueles ferros à toa, com tanta espontaneidade. Há muito marketing por trás desse gesto.

segunda-feira, 16 de setembro de 2013

Cinema e Saúde: Tecnologias

Quando eu tinha entre oito e dez anos, na longínqua Araçatuba, um dos meus passeios favoritos de bicicleta era ir até a estação ferroviária da Estrada de Ferro Noroeste do Brasil, NOB. Gostava do que via.
A praça em frente à estação era calçada com paralelepípedo e sombreada por várias árvores de fícus. Aquele calçamento me lembrava São Paulo e eu gostava de curtir aquela micro paisagem transportando-me para a Capital, seus bondes e seu movimento metropolitano.
Mas para além dos paralelepípedos, gostava de procurar na plataforma de embarque\desembarque por uma preciosa e anunciadora mercadoria: as latas com os filmes que seriam exibidos nos cinemas da empresa exibidora Pedutti. Era com certo deleite que via, ali no chão da estação, os títulos dos filmes pregados naquelas latas redondas: East of Sumatra ou Flash Gordon on The Planet Mongo.
Corta para 2012.
Minha amiga Madrasta (o carinhoso apelido resulta da personagem que ela interpretou quando adolescente – também em Araçatuba – numa versão que dirigi de A Gata Borralheira) que é esportista adepta do pedestrianismo e faz exercícios regularmente pelas ruas da USP correndo em média doze quilômetros por dia, me mostrou um brinquedinho novo. Trata-se de um relógio de pulso que mede e registra diversos dados do corpo humano durante os exercícios: pressão sanguínea, batimentos cardíacos, quantos metros correu, qual a velocidade média, o comportamento da pressão etc.
Corta para 2013.
Leio no jornal sobre dois assuntos correlatos às minhas lembranças acima.
Primeiro sobre o cinema. Os rolos, que já não são mais utilizados e foram substituídos pelos discos digitais, ficarão mesmo nos museus e cinematecas. Isso porque os grandes estúdios e distribuidoras estão finalizando sistemas de transmissão de seus filmes, para os cinemas, via satélite.
No Brasil a Ancine, Agência Nacional de Cinema, estabeleceu o prazo de 2014 para que todos os cinemas substituam os projetores analógicos pelos digitais. O sistema digital, embora dispense as fitas em celuloide, ainda usa aparato físico em razão do uso dos DVDs e sua gravação.
Já o novo sistema, via satélite, dispensa tudo isso.
Com uma antena de 2,5 metros, softwares de segurança para impedir que os arquivos sejam copiados ou que os exibidores reproduzam os filmes em mais salas do que as contratadas, as empresas exibidoras podem receber os filmes, simultaneamente, para mais de 150 salas em 50 diferentes cidades do país.
A empresa SES Global, baseada em Betzdorf, Luxemburgo, já foi contratada por empresas brasileiras para fazer essa distribuição a ser consolidada de vez em 2014. Ou seja, latas redondas com filmes de celuloide, como aquelas da estação da NOB ou como as que pegaram fogo e cegaram o protagonista de Cinema Paradiso chegaram mesmo ao fim.
A novidade é uma tecnologia cercada de diferentes aspectos de segurança no mesmo padrão já utilizado por um consórcio das grandes empresas estadunidenses como Disney, Paramont, Universal, Lionsgate e Warner Bros, que leva o nome de Coalisão de Distribuição Digital de Cinema, DCDC.
Com custos variando entre 250 e 300 mil reais para a adaptação do equipamento que recebe o filme via satélite, as empresas distribuidoras consideram menos onerosa e mais segura essa forma do que o sistema digital hoje existente que demanda maiores cuidados e ainda pode ser vítima de pirataria.
De olho na maximização do uso de seus espaços, os exibidores já farejam possibilidades de exibição, ao vivo, de grandes eventos em suas salas como jogos da Copa do Mundo, grandes conferências mundiais, Olimpíadas e outros.
Estamos a poucos passos de transformar “É tudo verdade” (Festival Internacional de Documentários) em “É tudo ao vivo”. Imaginemos um cinema que mantenha um canal direto, via satélite, transmitindo horrores da guerra na Síria ou as barbáries de países do Chifre da África.
E sobre o brinquedinho da Madrasta?
Ah, sim.
Trata-se da tendência que vem se consolidando da chamada Wearables ou Tecnologia de vestir.
É como estão sendo chamados os computadores em formato de roupas e que podem medir e monitorar as atividades físicas do indivíduo e conectados a um smartphone ou tablete podendo inclusive checar a fertilidade das mulheres.
As líderes em pesquisas nesse campo são a Sansung, a Apple e a Google. As menores, mas nem tanto, respondem pelos nomes de Pebble, Fitbit, Misfit, Wearable, Withings, Life Comm e outras. Trata-se de um mercado com grandes possibilidades e que tem como foco as empresas de seguro saúde.

No Brasil a empresa Carenet está lançando o seu primeiro produto no gênero, o Biosensor. Importado de um fornecedor asiático o produto tem a promessa de nacionalização e deve custar entre 200 e 300 reais.
De acordo com a empresa de pesquisa ABI Research, a venda desses aparelhos de vestir podem chegar em 2013 a 53 milhões de unidades batendo 340 milhões em 2017. De acordo com as pesquisas, esse crescimento será alavancado pela entrada das grandes como a Samsung e Sony nesse tipo de negócio.
Para os entendidos no assunto, “O pulso será dominado pelos relógios inteligentes dos grandes fabricantes. A oportunidade está em outras partes do corpo”.
Nessa perspectiva, a Misfit lançou um monitor do tamanho de uma moeda de um dólar que pode ser usado como um ornamento ou pendurado em qualquer parte do vestuário do usuário.
É hora de nos rendermos às tecnologias. George Orwell não sabia das coisas. Pelo menos não de todas elas.
Mas uma constatação, de há muito está feita: não só as latas com filmes na estação do trem perderam o espaço no cinema. Os relojoeiros suíços, também de há muito, perderam para os japoneses no negócio de marcar as horas.
A abordagem para iniciar assuntos perguntando sobre a hora também já se foi há muito. Mas imaginemos como poderia ser em 2016: ele olha para ela que toma água de coco numa barraquinha do Parque Vila Lobos (pode ser no Central Park também...) e pergunta: como estão os seus batimentos?                

(Dados no Valor Econômico © 2000 – 2013)

quarta-feira, 4 de setembro de 2013

O tenebroso mundo do Marketing

O Banco Santander foi o campeão das reclamações pelo terceiro mês consecutivo (junho, julho e agosto). A maioria delas se refere à venda de “produtos financeiros casados” e às práticas consideradas abusivas como cobrança de taxas, juros altos e outros problemas correlatos.
Logo atrás do Santander, quem diria, está o Banco do Brasil. Que não se espere que as TVs e jornais falem muito mais do que isso sobre essas duas instituições. Tampouco vão procurar seus executivos para entrevista-los a respeito do problema. O mesmo se dá com as empresas de telefonia celular, cujas Bandas Largas nos oferecem uma margem estreita de possibilidades de navegação.
 Os bancos citados, como as empresas de telefonia móvel são grandes patrocinadores de programas de peso nas TVs e anúncios nos jornais. Por mais tímida que seja a cobertura desse ranking tenebroso– ainda assim, quando se veem “acuados” os executivos que representam essas joias do setor privado costumam dizer um amontoado de anacolutos que se traduzem em cinismo puro.
Assim como as excelências legislativas de Brasília não ouvem as ruas, as empresas privadas flagradas no mau desempenho de sua missão, tergiversam, malufam e seguem tranquilas.
Sou meio obcecado com essa questão de dar satisfação ao cliente. Ah, anos 80! Essa sim foi uma era da inocência em termos do Marketing de Serviços. Foi uma época em que nomes como o de Karl Albrecht e Stan Rapp faziam sucesso tratando dessas questões em seus livros, hoje uma leitura inocente.
Muito se avançou nas diferentes gerações do marketing. Francisco Madia, aqui no Brasil, escreveu sobre o The Sensitive Chamagaroo ou A 11ª Geração do Marketing e analisou consumidor e mercado desde os tempos da caderneta no balcão do armazém até uma “Geração Síntese” onde canais de comunicação e distribuição se fragmentam e o peso de aspectos como simpatia, apreço, admiração e fidelização passa a ser muito maior na formação do valor de produtos e serviços.
Quando começou o movimento virtual das redes sociais, muito se escreveu sobre o assunto alertando as empresas para o efeito cascata e viral de seus “malfeitos”. Pois nada do que foi previsto ocorreu. Empresas e personalidades públicas pegas com seus “malfeitos”, seguem incólumes.
Desde os anos 80 tenho por hábito tentar me comunicar com empresas, jornalistas, articulistas, autores, professores, políticos e governos. Sempre busquei reclamar, elogiar (é o mais importante) e fazer sugestões. Não é uma tarefa grata. O percentual de respostas às minhas observações sempre foi baixíssimo.
Claro, fiquei esperançoso quando a Internet se instalou de vez. Mais ainda quando o conceito de CRM (Custumer Relationship Management) virou notícia com programas específicos para o atendimento às expectativas dos clientes\consumidores. Em vão. No Brasil, os SAC (Serviço de Atendimento ao Cliente) respondem muito mal àqueles que os procuram.
Só nos últimos sessenta dias,fiz contato com diferentes empresas em razão de seus produtos ou serviços. Entre os contatados, sempre via Internet,no“Fale Conosco”, estão duas empresas de cosméticos, uma empresa de transportes aéreos, uma revista semanal e um hospital privado. NENHUM deles ao menos respondeu um formal “Obrigado por sua mensagem, faremos contato em breve”.
Devo dizer que os temas, sempre colocados de forma sucinta, eram de seu absoluto interesse. Nada, mesmo assim.
Hoje li uma notícia que me arrepiou. O historiador britânico Niall Ferguson lançou neste ano um livro sob o título “The Great Degeneration” (A Grande Degeneração), no qual ele vê uma decadência institucional no Ocidente. Na sua perspectiva os EUA caminham rapidamente para o “Estado Estacionário” que, na visão de Adam Smith, se traduz em um país que era rico, mas que parou de crescer, onde uma elite rica explora leis e regulamentos em detrimento de empresas e indivíduos, e onde, também, o agravamento de desigualdades pode levar à convulsão social.
O que alivia esse quadro mais próximo das aventuras de Ivan o Terrível, é que o consultor Harold Sirkin, do BCG (Boston Consulting Group) traça uma perspectiva diferente. Ele diz que a “consciência chinesa” vem elevando os salários naquele país comunista resultando num custo maior de seus produtos. Com isso os EUA vêm retomando algumas produções que se lhes escaparam entre os anos 90 e 2000 por conta da globalização. E retomando o crescimento. E o crescimento do mais desenvolvido país ocidental há de ser bom para todos. Desde que saibamos negociar.
É um cenário melhor na economia. Mas o espírito das empresas em relação aos seus clientes\consumidores parece estar mais alinhado com a visão pessimista do historiador inglês.