quarta-feira, 25 de janeiro de 2017

Uma aventura no que, turismo não é...

Em 2015 visitei Búzios, litoral fluminense.
De há muito ouvia falar do lugar como um centro badalado, cheio de turistas estrangeiros e onde, lá nos anos 60, Brigitte Bardot, a estrela francesa de sucesso na época, passava suas férias de inverno europeu.
Entre as tantas recordações, a cidade ganhou até uma escultura da figura da sensual atriz francesa.
O litoral fluminense, a Região dos Lagos, foi notícia nos anos 60/70. Em Cabo Frio, por exemplo, na Praia dos Ossos, em 1976, “Doca” Street matou a tiros a namorada Ângela Diniz, socialite mineira que teria se interessado por uma moça alemã que conhecera na praia. Eram tempos de revistas semanais cariocas que vendiam esse mundo, então glamoroso, das terras fluminenses.
Mas volto à minha visita a Búzios, em 2015.
Para percorrer os 44 km entre Rio das Ostras e Búzios, gastei quase uma hora.
Começa-se pela RJ 106, entrando depois na RJ 102.
A viagem foi um jogo de vídeo game. Sem acostamento ou sinalização, enfrentei ultrapassagens proibidas, entradas e saídas da pista sem o menor aviso e rapidez na direção para escapar dos buracos.
Enfim na cidade, busquei na praia central a estátua de Brigitte Bardot.
- Danificaram senhor. Foi para o conserto há uns seis meses.
Foi a explicação que me deram.
As ruas sujas e a gastronomia com nada de especial. Como nada especiais eram as fachadas das lojas, com seus painéis de anúncios, de grande poluição visual.
Búzios.
Em 2016 a aventura foi visitar o que os fluminenses chamam de Região Serrana.
Para chegar à Nova Friburgo, a partir de Rio das Ostras (e todos os que vêm da Região dos Lagos) utiliza-se a RJ 142, conhecida como Serramar. Trata-se de uma rodovia com 61 km de extensão e que liga os municípios de Casemiro de Abreu e Nova Friburgo. É considerada como “Ecoestrada”, por percorrer os contrafortes da Serra do Mar.
Mas, de novo. É uma estrada acanhada, claramente sem planejamento ou obras de infraestrutura mínima. Não tem acostamento, não tem guardrail ou placas de sinalização. Sobre a não existência do acostamento, não é uma força de expressão. O asfalto acaba na maioria das vezes numa canaleta coberta de mato ou simplesmente num barranco de onde se pode ver o fundo dos vales.
Se não apresenta tantos buracos, em alguns trechos encontrei bancos de areia no meio da pista.
- Foi uma chuvarada forte em outubro que trouxe o desmoronamento para a pista. E não removeram a terra até hoje.
Essa a explicação de um nativo sobre aqueles murundus no meio da pista estreita. À noite aquilo se transforma numa armadilha digna de Indiana Jones.
Lumiar é uma vila turística no km 41 da estrada Serramar.
O local tem uma pequena praça cercada de alguns restaurantes honestos e seu entorno tem vários pontos de rios que servem para o que os locais chamam de “banho de cachoeira” ainda que possam não apresentar uma queda d’água expressiva. A paisagem é de muito verde.
Chegando à área urbana de Nova Friburgo, o distrito de Muri é tido como um centro gastronômico local. Mas as dificuldades permanecem.
A rodovia que atravessa o distrito segue sem acostamento. As placas indicativas para os restaurantes são poucas e não claras. E se é difícil estacionar nos restaurantes, andar a pé beirando a estrada é uma roleta russa.
Mas, mesmo sem acostamento, trevos de conversão e acesso ou placas indicativas de atrativos turísticos (aquelas na cor marrom) o local é mais bem arrumado e mais civilizado.
A área urbana de Nova Friburgo é comprida. O centro comercial é limpo e arborizado. As casas de pasto são simples e honestas.
No distrito de Muri foi possível provar uma truta, também honesta, numa das casas do circuito gastronômico.
As pousadas ficam no que pode ser considerado o subúrbio da cidade. De novo, em estradas sem acostamento, sem placas indicativas claras e com grande dificuldade de acesso vez que a falta de acostamento, de trevos de acesso ou de simples limpeza da beira da estrada, dificultam a vida do usuário.
Mas, e as pessoas?
Ah, sim.
Pousadas e restaurantes geridos por pessoas agradáveis, hospitaleiras e quase conformadas com o infortúnio da gestão pública de seu estado, o Rio de Janeiro.
Sobre as placas de sinalização, por exemplo, me disse uma empreendedora local, que o DER-RJ tirou todas as placas das pousadas da beira da estrada e cobrou multa para a devolução delas. Não colocam sinalização oficial e tampouco conservam as rodovias.
Sinal de celular nas estradas? Risadas.
Socorro mecânico? Resgate e assistência médica?
Risadas.
Em plena passagem de ano, com aumento do tráfego, nada de policiamento nos trechos pelos quais rodei. Nenhum mesmo.
Em contrapartida, se comparados ao estado de São Paulo, os preços são muito mais acessíveis.

Não é um lugar para se voltar, pelo menos até que se conserte o mal que os últimos governantes deixaram, ainda que sua paisagem seja agradável e sua gente hospitaleira.

terça-feira, 5 de maio de 2015

A UBER e o futuro

Uma juíza revogou ontem, 05\05\2015, a liminar que havia sido concedida pela 12ª Vara Cívil da cidade de São Paulo determinando a suspensão do UBER, um aplicativo para chamar serviços de transporte individual por carros. A liminar notificava ainda as empresas Google, Apple, Microsoft e Samsung para que tirassem o aplicativo de suas lojas virtuais, sob pena de multa diária de R$100 mil em caso de desobediência.
A liminar revogada atendia à ação impetrada pelo Sindicato dos Motoristas e Trabalhadores nas Empresas de Táxi do Estado de São Paulo, que alega concorrência desleal, insegurança ao usuário e o não pagamento de impostos e demais taxas a que estão sujeitos os serviços de táxi oficial.
Mas o que vem a ser a UBER?
A empresa, uma startup na área tecnológica, foi criada em 2009 pelos estadunidenses Garret Camp e Travis Kalanick.
Em sua gênese a UBER deveria ser um serviço de transporte em carros de luxo. Para isso só aceitavam cadastro de carros como Mercedes S550 e outros do gênero. E exigiam do motorista algumas condições de trato, comportamento e conhecimentos. Em 2010 lançaram o aplicativo para iPhone.7 e Android.
Em 2010 e 2011 a UBER recebeu de anjos investidores e venture capitalists, cerca de 50 milhões de dólares.
No ano seguinte, 2012, novos avanços.
Seus serviços chegaram a Londres, foram ampliados para chamar táxis convencionais na cidade de Chicago e passaram a oferecer serviços de táxi aéreo, por helicóptero, entre Nova Iorque e Hamptons por US$3 mil.
A UBER chegou ao Brasil em maio de 2014, na cidade do Rio de Janeiro, de olho na Copa do Mundo. A tarifa mínima para se utilizar os serviços UBER em 2014 era de R$13,50. Em comparação com os serviços convencionais de táxi suas tarifas eram mais altas. A bandeirada (tarifa básica) era cobrada a R$5,40 contra R$4,80 dos taxis convencionais. O quilometro rodado custava R$2,76 contra R$1,95 do táxi comum.
No final de junho de 2014 o serviço chegou a São Paulo.
A UBER não é pioneira no Brasil no uso do E-hailing que é como se denominam os aplicativos com localizadores GPS para chamar serviços de táxi. Já existiam vários aplicativos em uso para chamar táxi no país como o Easy Taxi e o 99 Taxi, os mais conhecidos.
Qual é então a questão?
Trata-se de um ponto de vista legalista, ou seja, aqueles que pagam licenças específicas para oferecer esses serviços reclamam desse tipo de concorrência que nada paga ao poder público para fazer a mesma coisa. Faz sentido, uma vez que os aplicativos acima citados servem apenas para chamar táxis registrados como tal nos municípios. Já a UBER aceita inscrições de particulares tendo como exigência apenas o preenchimento das características do carro e do motorista.
Mas faz sentido também do outro ponto de vista: o dos avanços tecnológicos. Sabemos todos que de há muito a sociedade perdeu, por exemplo, o hábito de escrever cartas e postá-las nos correios. As tarifas mais baixas dos telefones – mesmo antes do celular – contribuíram para isso. Mas foi a Internet, a partir dos anos 1990 que selou de vez o fim das cartas em papel, via correio. A possibilidade de se mandar email em tempo real para o exterior ou para um estado distante dentro do país nos fez esquecer as cartas. Hoje então, com tudo disponível nos smartphones, nem se pensa mais em papéis para comunicação com aqueles a quem amamos ou com quem trabalhamos.
E as fotografias em filmes celuloides e reveladas em papel?
Bem, a Kodak não entrou na Justiça para interromper a fabricação de câmeras digitais. Quando os celulares se configuraram em câmeras de nitidez impensada a Kodak já estava de joelhos com seus filmes e papéis de revelação. Tampouco os correios reclamaram da Internet. E Kodak e Correios são dois símbolos sofridos da transformação promovida pela tecnologia.
Claro, no caso dos táxis existem alegações legais, coisas e tais. Faz sentido. E sempre fará. Mas é do avanço das tecnologias. Para o bem e para o mal.
Quando surgiu a máquina a vapor e os trens de carga e passageiros os criadores de cavalos ficaram, com razão, preocupados. Com a chegada dos automóveis, muitos gritaram que era o fim do cavalo. Sim, pode ter diminuído o volume de animais no mundo. Mas o cavalo não desapareceu.
Nos anos 2000 há uma tendência do uso de motocicletas para o pastoreio de gado, seja ele vacum ou caprino, em regiões que vão da Austrália ao sertão do Nordeste brasileiro.
Sem entrar na questão do futuro de longo prazo e das energias esgotáveis, volto à UBER.
Trata-se de uma tendência para diferentes serviços oferecidos à sociedade. Aos poucos eles serão regulamentados. E surgirão em moda passageira ou para ficar. Pensemos nos Foodtruck. Os restauranteurs não se abalaram. Trataram de entrar no clima ou investir eles mesmo em unidades móveis como apêndice de suas casas. Poderia ir longe no tema, mesmo sem entrar na questão do fim da venda de bilhetes aéreos através de agências. Quem precisa das agências com as ofertas das cias aéreas diretamente na Internet? Não se vai conseguir impedir é que novos serviços apareçam cada vez mais. É irreversível.
Quanto à segurança dos serviços, tudo vai se arranjando. As pessoas vão aprendendo a ter mais cuidado e as empresas a oferecer sistemas mais seguros.
Os donos do mercado vão reclamar. É justo. Mas terão que se adaptar. Terão que criar. Terão que competir.

É o futuro. Sempre chegando.

sábado, 21 de junho de 2014

Personagens do bairro

1.       Rafael, nome fictício, é um baiano cuja idade deve variar entre 40 e 55 anos. É magro, poucos cabelos amarrados num rabo de cavalo fraco, às mechas fracas. Sua companheira inseparável é Lili. Ela é uma poodle simpática sempre descansando à sobra das pequenas árvores da rua ou na porta de uma das lojas. Ninguém reclama de sua presença. Rafael e Lili passam os dias, no horário comercial, ali naquela calçada da rua mais movimentada do bairro. Ele tem um comércio de livros usados. Sim, um sebo em plena rua. Seus títulos são sempre bons. Ele ganha muitos livros daqueles que precisam de espaço em suas casas. Mas só põe à venda as coisas boas. Sim, vai de atlas geográfico até Machado de Assis. Passa por Dan Brown e Frederick Forsyth, que ele considera os mais populares. Rodam ali naquelas ripas pregadas na parede onde ele equilibra os livros e no pedaço da calçada onde os distribui autores como James Joyce, Mark Twain, Dickens, Victor Hugo, Mann, Shakespeare, Balzac, Saramago, Veríssimo, Drummond, Paulo Coelho, J Amado, J de Alencar, C Meirelles e não acaba mais. No chão é possível encontrar também Zibia Gasparetto e DVDs originais. Sempre bons filmes. E Rafael está sempre lendo. Mas nunca vi quais os títulos de sua leitura. E a rotina segue com frio ou no calor insuportável do último janeiro. Ele e Lili, ali, firmes.
Rafael tem um velho Passat, daqueles que fizeram sucesso no Iraque. É ali que guarda, leva e traz seu comércio. Ele poderia fazer outra coisa que lhe desse um ganho melhor. Ou poderia simplesmente vagabundear lá pelo seu bairro. No entanto escolheu algo que, com justiça, considera nobre. E gosta de falar com aqueles que se interessam pelos seus produtos ou fazem encomendas. Sim, ele aceita encomendas. É um sebo a céu aberto que traz charme para as lojinhas da rua. Não é um sujeito comunicativo. Tampouco simpático à primeira vista. Ele não tem o sobrenome Herz, da família que empreendeu na Livraria Cultura. Mas isso é só um acidente de percurso. Ele é filho fora do casamento de um baiano que morreu no ano passado e muito pouco parece ter-lhe dado. E por conta disso ele teve que ir até o sertão baiano, 2.018 km de distância, levando Lili, para assinar o inventário junto com os irmãos legalizados. E espera receber seu quinhão do sítio que o pai deixou. Tivesse tido outras condições na educação e os Herz teriam um bom concorrente hoje. Falo dele porque ontem o encontrei triste com sua Lili puxada na guia, magra e com visível queda de pelos. Explicou que está aflito porque a parceira está com uma diabetes avançada, descobriu há dias. E que a insulina, como a ração especial são caras. Também, explicou de novo, a vida toda ela comeu por ali o que lhe davam arroz, feijão, pedaços de frango e até batata. O veterinário explicou que isso pode ter agravado. Desejei o melhor para os dois e dessa vez nada comprei. Segui pensando que o livreiro de rua terá uma jornada ainda mais sofrida com a perda da companheira que, oxalá, completará dez anos em agosto.
2.       Amanda é uma moça baixinha entre 18 e 22 anos. Tem um rostinho bonito com um pouco de acne em cada uma das bochechas. E a conheci ali perto dos caixas eletrônicos do banco, onde ela ficava para auxiliar os clientes. E conversávamos sempre que lhe tinha que pedir para carimbar o meu bilhete do estacionamento para o devido desconto no pagamento. Amanda mora em Osasco e tem uma jornada longa todas as manhãs entre trem e ônibus para chegar ao trabalho. Perguntando sobre seus estudos, ela disse que aguardava ser contratada pelo banco para então “fazer faculdade” e tentar carreira naquela instituição. Precisava do magro salário que lhe pagavam para ficar das onze às dezesseis horas atendendo a idosos confusos e trabalhadores que precisam sacar seus salários também minguados. Um dia ele se disse preocupada. Explicou que estava à espera de um avaliador que a entrevistaria sem se identificar. Era o sujeito que tinha o poder de vida ou morte sobre seu emprego. Eu a tranquilizei: bobagem, você é boa no que faz. Mas tive certo arrepio. Amanda é do tipo bem ingênuo, quase simplório, ainda que amável e prestativa. E naquele momento do nosso diálogo ela me disse: olha vem vindo aí o Alberto. Ele é um assistente de gerencia da agência. Ele se acha importante e não me cumprimenta. Uma vez pedi uma explicação para ele e sua resposta foi grosseira, disse que eu sou burra e não sou funcionária do banco. Pode? Não, não pode, disse eu. Então o Alberto passou. Altivo, dono de seu poder de polichinelo. E não olhou para Amanda. Uma acintosa agressão. Coisa de almas cruéis. Então, vez em quando eu perguntava à Amanda sobre o entrevistador oculto. Nada ainda, dizia. O cara se identifica depois do diálogo. Na semana passada, depois de dias sem ver minha amiga dos caixas eletrônicos, perguntei à moça que a substituía por onde andava Amanda. Ela saiu, respondeu a moça. Em que posso servi-lo?

Fiquei triste. O perfil de Amanda não parecia adequado à dose de agressividade que se nos exige o tal do mercado. Ela não foi efetivada na instituição bancária. Poderia atrapalhar nos rendimentos do banco, que com tanto suor ganha migalhas no Brasil. Mas nada me tira da cabeça de que o tal do Alberto, cabeça alta e desprezando a nossa menina tão singela, tem a ver com isso. 

quarta-feira, 27 de novembro de 2013

Café & Antropologia

Em janeiro deste ano escrevi neste blog matéria sob o título Reflexões sobre a globalidade na qual abordei a questão da inserção forçada de novos costumes nas diferentes sociedades. Falei então da invasão da Coca Cola na China e na África, onde interferiu na milenar tradição do consumo do chá. No Norte africano os Tuaregues foram assediados até com brindes como geradores portáteis e geladeiras para “tomarem gosto” pelo refrigerante negro. Dizem que o chá quente tem efeito na resistência desses povos nômades ao calor do deserto. Já a Coca Cola manda mais sódio para o organismo deles. Mas o que fazer? Até motos e quadiciclos vêm substituindo os camelos as areias saarianas...

Vejo no noticiário econômico desta semana que o Brasil entrou no grupo que “ajuda a China a estimular o consumo de café”. Até posso ver um rosto simpático como aquele da bióloga brasileira que, ativista do Green Peace, foi presa na Rússia, dizendo com algum espanto:
- Por que eles têm que gostar de café, Santo Deus? Não consomem chá há milênios e estão bem?
Ah, minha doce ativista, porque na lógica do mercado eles representam uma colossal arena sem tradição de consumir café, mas com todas as condições para se transformar no maior consumidor global dos derivados da Rubiácea.
O consumo dos Estados Unidos é, em 2013, de 23,5 milhões de sacas de 60 quilos\ano. Já a China, de acordo com previsões tidas como otimistas, deve consumir 2,8 milhões de sacas em 2020.
Segundo a Organização Internacional do Café, em 2012 os chineses consumiram 1,1 milhão de sacas ou magras 25 gramas por habitante.
Os executivos da área cafeeira são otimistas e miram o exemplo do Japão que, com costumes relativamente parecidos em relação ao chá e alimentação sem gorduras (os chineses têm maior consumo de frituras e gordura animal), aderiram ao consumo do café e são hoje o quarto país em consumo do produto atrás apenas dos EUA, Brasil e Alemanha.
Para Bunco Wong, presidente da Associação Chinesa de Cafés Especiais (CSCA, na sigla em inglês) os jovens são a grande esperança nessa virada de consumo uma vez que são mais abertos aos costumes ocidentais. Nos grandes centros urbanos do país cresce o número de cafeterias sempre cheias de jovens seguidores do modismo ocidental do capitalismo-comunista.
Segundo Wong, 97% da população chinesa consomem chá e apenas 7% “têm experiência” com café, o que não se traduz em consumo diário. Já os que compram cafés especiais chegam a 3%.
Verdadeiras operações de guerra vêm sendo montadas pela CSCA para “ensinar” os chineses a apreciar um bom café. Entre as justificativas para essa interferência cultural e econômica está a de que o consumo de café deve gerar boas possibilidades de emprego para um contingente de quatro milhões de jovens que saem das universidades todos os anos.
Então. Economistas e engenheiros recém-formados vão virar balconistas de franquias da Starbucks?
As primeiras cafeterias foram abertas em Hong Kong no final da década de 1980 e o costume, devagar, migrou para o continente.
Os chineses, de acordo com Wong, gostam de café muito doce e misturado com muito leite. Muito pouco chinês esse perfil.
O jovem Bunco Wong esteve recentemente no Brasil e gostou do trabalho da Associação Brasileira da Indústria do café (Abic), sobretudo no que diz respeito ao Programa de Qualidade do café (PQC).
Entre os temas das conversações dois pontos ficaram no horizonte para brasileiros e chineses: organizar um instituto na China para processos de colheita, pós-colheita e classificação de grãos. Já os chineses, em contrapartida, têm interesse em desenvolver novas máquinas de café expresso e coloca-las no Brasil.
Assim funciona o mercado. Quem produz tem que buscar consumidores. Essa lógica impulsionou a navegação e os descobrimentos na Idade Média e assim tem sido.
Não se trata de um simples processo de distribuição, mas sim, de uma interferência sócio antropológica.
Se o cinema estadunidense influenciou diferentes sociedades mundo afora desde os anos 1930, nem de longe podemos comparar esse fenômeno com essas mudanças radicais em costumes alimentares como vem ocorrendo desde meados do século vinte.
Sim, porque não se trata de apenas oferecer um produto, montar lojas ou fazer promoção. Trata-se de verdadeira lavagem cerebral no sentido de tornar comuns práticas alimentares que ferem as tradições de nações e levam a mudanças em toda a cadeia, desde a produção no setor primário até o consumo pelas novas gerações.
Na matéria de 16 de janeiro de 2013, falei aqui neste blog sobre a força das cervejas em países como Portugal, Espanha e Argentina, derrubando o consumo do vinho. Da mesma forma o tabaco invade regiões do mundo onde a legislação não tem preocupação com a saúde da população. Ou vendem Coca Cola para os Tuaregues.
Nunca duvidei de que a livre iniciativa e a livre economia, com regras básicas e fiscalizadas pelo Estado, é que trazem crescimento, progresso e fartura para as nações.
Mas tudo tem um preço.

Fonte: Valor Econômico, Carine Ferreira, 26\11\13        

sábado, 23 de novembro de 2013

Astros mirins e sensualidade

Abro a página da UOL e vejo que a atriz Abigail Breslin fez ensaio sensual entre espumas e lençóis, aos dezessete anos. Breslin foi indicada para o Oscar em 2002 por seu papel como filha do personagem principal em Sinais atuando ao lado de Mel Gibson.
Mas a menina ficou mesmo conhecida como a irresistível personagem do filme Little Miss Sunshine, em 2006. Não resisti. Recorri a Wikipédia.
Abigail Kathleen Breslin nasceu em abril de 1996 em NYC, filha de pais que trabalham com Telecomunicações e TI. Tem dois irmãos que também são atores, mas nada consta deles sobre trabalhos diferenciados como os dela. Sobre a menina não se pode dizer que seja uma atriz diferenciada. É certo que ela apresentou um jeito muito espontâneo na sua personagem em Miss Sunshine. Talvez tenha sido mais convincente como a órfã em Sinais.  
O que me fez buscar mais notícias sobre a menina foi a história de querer mostrar seu corpo ou “ousar mais” para o público. Ela não é a primeira. Mas me intriga mesmo assim.
Há dias vi num telejornal a atriz Miley Cyrus, principal figura da série da Disney Hannah Montana num clipe no qual, nua, lambe sensualmente um martelo. E a notícia foi longe, mostrando o comportamento abusado na menina em outros shows.
Cyrus, nascida Destiny Hope Cyrus, sabe bem o que faz. É um jogo mercadológico. Quer ser vista como mulher. E mulher para instigar os desejos humanos. Masculinos ou femininos.
Vi o clipping no qual lambe o martelo. O roteiro do vídeo a mostra sentada e balançando numa bola de aço, dessas de demolição. Ela beija também a corrente que prende a bola. E derruba as paredes no refrão da música. É bonita e se reveza entre a nudez e calcinha e sutiã. Sempre usando coturno.
Nem sempre artistas mirins sabem lidar com a fama. Drew Barrymore foi um exemplo. Depois do sucesso de ET, o filme de Spielberg (1982) no qual faz a irmã do personagem principal ela viveu péssima fase envolvida com álcool e drogas. Teve muita sorte na recuperação e hoje é uma atriz respeitada em Hollywood, em comédias e dramas.
Outro nome mirim famoso é Macaulay Culkin, nascido Macaulay Carson Culkin em 1980. Depois do sucesso da sequência de “Esqueceram de mim”, o ator viu-se envolvido em problemas que começaram em casa. Seus pais disputaram, literalmente, a tapa, sua fortuna de 17 milhões, à época. Crescido e moço, Culkin não se revelou tão bonito quanto na infância. E menos talentoso.
Seu nome na mídia apareceu mais ligado a escândalos, como o suposto envolvimento sexual com Michael Jackson e sua prisão por porte de maconha e anfetaminas.
A trajetória de astros mirins nunca foi linear.
Para os atores, quando a cabeça é boa ou bem orientada, a escada é menos íngreme uma vez que eles podem ir mudando de papéis para personagens mais velhos. Assim um ator pode ir da infância até representar como avós e sábios anciões. Mas nem sempre é linear.
Para os astros mirins de muito sucesso, a adolescência e a entrada na maturidade podem se revelar uma armadilha. Sua graça infantil pode não se manter aos quinze anos. Eles podem estar gordos ou mesmo sem charme. Pode também ocorrer um hiato na adolescência e eles voltarem a ter charme aos vinte anos. Ou simplesmente podem não ter o talento e a espontaneidade da infância.
Esse risco pode também ocorrer no ocaso da carreira, quando eles devem passar a interpretar pais e avós de outros galãs. Mas essa é outra história.
Envolvimento com drogas parece estar na razão direta das estruturas familiares e de como tratar com o sucesso tão prematuro.
Já a necessidade de mostrar ao público que “agora sou sensual” parece mesmo uma necessidade de virar adulto, de sair daquele casulo da virgindade, cair no mundo. A questão é a dosagem disso.
Para os artistas da música esse caminho é ainda pior. Eles têm que mudar o repertório e a imagem. Nessa perspectiva está a mudança para um público que, acreditem, pode ser o mesmo de quando tinham seus oito anos e cantavam para outras crianças de também oito anos.
Essas mesmas crianças, quando chegam aos dezoito anos, gostam de sons melhor definidos do que aqueles pops do tipo Sandy & Júnior ou Hannah Montana. E os artistas têm que fazer a sua opção pela nova linha de sua música e pelo visual mais adulto. Em geral mais sensual.
Trata-se de um reposicionamento de produto que deve ser trabalhado ao longo da carreira. Na medida de seu amadurecimento o astro da música deve ir repaginando sua imagem e produtos de modo a tornar quase natural a sua mudança e a consolidação de “nova” carreira.

Miley Cyrus, com certeza, não lambeu aqueles ferros à toa, com tanta espontaneidade. Há muito marketing por trás desse gesto.

segunda-feira, 16 de setembro de 2013

Cinema e Saúde: Tecnologias

Quando eu tinha entre oito e dez anos, na longínqua Araçatuba, um dos meus passeios favoritos de bicicleta era ir até a estação ferroviária da Estrada de Ferro Noroeste do Brasil, NOB. Gostava do que via.
A praça em frente à estação era calçada com paralelepípedo e sombreada por várias árvores de fícus. Aquele calçamento me lembrava São Paulo e eu gostava de curtir aquela micro paisagem transportando-me para a Capital, seus bondes e seu movimento metropolitano.
Mas para além dos paralelepípedos, gostava de procurar na plataforma de embarque\desembarque por uma preciosa e anunciadora mercadoria: as latas com os filmes que seriam exibidos nos cinemas da empresa exibidora Pedutti. Era com certo deleite que via, ali no chão da estação, os títulos dos filmes pregados naquelas latas redondas: East of Sumatra ou Flash Gordon on The Planet Mongo.
Corta para 2012.
Minha amiga Madrasta (o carinhoso apelido resulta da personagem que ela interpretou quando adolescente – também em Araçatuba – numa versão que dirigi de A Gata Borralheira) que é esportista adepta do pedestrianismo e faz exercícios regularmente pelas ruas da USP correndo em média doze quilômetros por dia, me mostrou um brinquedinho novo. Trata-se de um relógio de pulso que mede e registra diversos dados do corpo humano durante os exercícios: pressão sanguínea, batimentos cardíacos, quantos metros correu, qual a velocidade média, o comportamento da pressão etc.
Corta para 2013.
Leio no jornal sobre dois assuntos correlatos às minhas lembranças acima.
Primeiro sobre o cinema. Os rolos, que já não são mais utilizados e foram substituídos pelos discos digitais, ficarão mesmo nos museus e cinematecas. Isso porque os grandes estúdios e distribuidoras estão finalizando sistemas de transmissão de seus filmes, para os cinemas, via satélite.
No Brasil a Ancine, Agência Nacional de Cinema, estabeleceu o prazo de 2014 para que todos os cinemas substituam os projetores analógicos pelos digitais. O sistema digital, embora dispense as fitas em celuloide, ainda usa aparato físico em razão do uso dos DVDs e sua gravação.
Já o novo sistema, via satélite, dispensa tudo isso.
Com uma antena de 2,5 metros, softwares de segurança para impedir que os arquivos sejam copiados ou que os exibidores reproduzam os filmes em mais salas do que as contratadas, as empresas exibidoras podem receber os filmes, simultaneamente, para mais de 150 salas em 50 diferentes cidades do país.
A empresa SES Global, baseada em Betzdorf, Luxemburgo, já foi contratada por empresas brasileiras para fazer essa distribuição a ser consolidada de vez em 2014. Ou seja, latas redondas com filmes de celuloide, como aquelas da estação da NOB ou como as que pegaram fogo e cegaram o protagonista de Cinema Paradiso chegaram mesmo ao fim.
A novidade é uma tecnologia cercada de diferentes aspectos de segurança no mesmo padrão já utilizado por um consórcio das grandes empresas estadunidenses como Disney, Paramont, Universal, Lionsgate e Warner Bros, que leva o nome de Coalisão de Distribuição Digital de Cinema, DCDC.
Com custos variando entre 250 e 300 mil reais para a adaptação do equipamento que recebe o filme via satélite, as empresas distribuidoras consideram menos onerosa e mais segura essa forma do que o sistema digital hoje existente que demanda maiores cuidados e ainda pode ser vítima de pirataria.
De olho na maximização do uso de seus espaços, os exibidores já farejam possibilidades de exibição, ao vivo, de grandes eventos em suas salas como jogos da Copa do Mundo, grandes conferências mundiais, Olimpíadas e outros.
Estamos a poucos passos de transformar “É tudo verdade” (Festival Internacional de Documentários) em “É tudo ao vivo”. Imaginemos um cinema que mantenha um canal direto, via satélite, transmitindo horrores da guerra na Síria ou as barbáries de países do Chifre da África.
E sobre o brinquedinho da Madrasta?
Ah, sim.
Trata-se da tendência que vem se consolidando da chamada Wearables ou Tecnologia de vestir.
É como estão sendo chamados os computadores em formato de roupas e que podem medir e monitorar as atividades físicas do indivíduo e conectados a um smartphone ou tablete podendo inclusive checar a fertilidade das mulheres.
As líderes em pesquisas nesse campo são a Sansung, a Apple e a Google. As menores, mas nem tanto, respondem pelos nomes de Pebble, Fitbit, Misfit, Wearable, Withings, Life Comm e outras. Trata-se de um mercado com grandes possibilidades e que tem como foco as empresas de seguro saúde.

No Brasil a empresa Carenet está lançando o seu primeiro produto no gênero, o Biosensor. Importado de um fornecedor asiático o produto tem a promessa de nacionalização e deve custar entre 200 e 300 reais.
De acordo com a empresa de pesquisa ABI Research, a venda desses aparelhos de vestir podem chegar em 2013 a 53 milhões de unidades batendo 340 milhões em 2017. De acordo com as pesquisas, esse crescimento será alavancado pela entrada das grandes como a Samsung e Sony nesse tipo de negócio.
Para os entendidos no assunto, “O pulso será dominado pelos relógios inteligentes dos grandes fabricantes. A oportunidade está em outras partes do corpo”.
Nessa perspectiva, a Misfit lançou um monitor do tamanho de uma moeda de um dólar que pode ser usado como um ornamento ou pendurado em qualquer parte do vestuário do usuário.
É hora de nos rendermos às tecnologias. George Orwell não sabia das coisas. Pelo menos não de todas elas.
Mas uma constatação, de há muito está feita: não só as latas com filmes na estação do trem perderam o espaço no cinema. Os relojoeiros suíços, também de há muito, perderam para os japoneses no negócio de marcar as horas.
A abordagem para iniciar assuntos perguntando sobre a hora também já se foi há muito. Mas imaginemos como poderia ser em 2016: ele olha para ela que toma água de coco numa barraquinha do Parque Vila Lobos (pode ser no Central Park também...) e pergunta: como estão os seus batimentos?                

(Dados no Valor Econômico © 2000 – 2013)

quarta-feira, 4 de setembro de 2013

O tenebroso mundo do Marketing

O Banco Santander foi o campeão das reclamações pelo terceiro mês consecutivo (junho, julho e agosto). A maioria delas se refere à venda de “produtos financeiros casados” e às práticas consideradas abusivas como cobrança de taxas, juros altos e outros problemas correlatos.
Logo atrás do Santander, quem diria, está o Banco do Brasil. Que não se espere que as TVs e jornais falem muito mais do que isso sobre essas duas instituições. Tampouco vão procurar seus executivos para entrevista-los a respeito do problema. O mesmo se dá com as empresas de telefonia celular, cujas Bandas Largas nos oferecem uma margem estreita de possibilidades de navegação.
 Os bancos citados, como as empresas de telefonia móvel são grandes patrocinadores de programas de peso nas TVs e anúncios nos jornais. Por mais tímida que seja a cobertura desse ranking tenebroso– ainda assim, quando se veem “acuados” os executivos que representam essas joias do setor privado costumam dizer um amontoado de anacolutos que se traduzem em cinismo puro.
Assim como as excelências legislativas de Brasília não ouvem as ruas, as empresas privadas flagradas no mau desempenho de sua missão, tergiversam, malufam e seguem tranquilas.
Sou meio obcecado com essa questão de dar satisfação ao cliente. Ah, anos 80! Essa sim foi uma era da inocência em termos do Marketing de Serviços. Foi uma época em que nomes como o de Karl Albrecht e Stan Rapp faziam sucesso tratando dessas questões em seus livros, hoje uma leitura inocente.
Muito se avançou nas diferentes gerações do marketing. Francisco Madia, aqui no Brasil, escreveu sobre o The Sensitive Chamagaroo ou A 11ª Geração do Marketing e analisou consumidor e mercado desde os tempos da caderneta no balcão do armazém até uma “Geração Síntese” onde canais de comunicação e distribuição se fragmentam e o peso de aspectos como simpatia, apreço, admiração e fidelização passa a ser muito maior na formação do valor de produtos e serviços.
Quando começou o movimento virtual das redes sociais, muito se escreveu sobre o assunto alertando as empresas para o efeito cascata e viral de seus “malfeitos”. Pois nada do que foi previsto ocorreu. Empresas e personalidades públicas pegas com seus “malfeitos”, seguem incólumes.
Desde os anos 80 tenho por hábito tentar me comunicar com empresas, jornalistas, articulistas, autores, professores, políticos e governos. Sempre busquei reclamar, elogiar (é o mais importante) e fazer sugestões. Não é uma tarefa grata. O percentual de respostas às minhas observações sempre foi baixíssimo.
Claro, fiquei esperançoso quando a Internet se instalou de vez. Mais ainda quando o conceito de CRM (Custumer Relationship Management) virou notícia com programas específicos para o atendimento às expectativas dos clientes\consumidores. Em vão. No Brasil, os SAC (Serviço de Atendimento ao Cliente) respondem muito mal àqueles que os procuram.
Só nos últimos sessenta dias,fiz contato com diferentes empresas em razão de seus produtos ou serviços. Entre os contatados, sempre via Internet,no“Fale Conosco”, estão duas empresas de cosméticos, uma empresa de transportes aéreos, uma revista semanal e um hospital privado. NENHUM deles ao menos respondeu um formal “Obrigado por sua mensagem, faremos contato em breve”.
Devo dizer que os temas, sempre colocados de forma sucinta, eram de seu absoluto interesse. Nada, mesmo assim.
Hoje li uma notícia que me arrepiou. O historiador britânico Niall Ferguson lançou neste ano um livro sob o título “The Great Degeneration” (A Grande Degeneração), no qual ele vê uma decadência institucional no Ocidente. Na sua perspectiva os EUA caminham rapidamente para o “Estado Estacionário” que, na visão de Adam Smith, se traduz em um país que era rico, mas que parou de crescer, onde uma elite rica explora leis e regulamentos em detrimento de empresas e indivíduos, e onde, também, o agravamento de desigualdades pode levar à convulsão social.
O que alivia esse quadro mais próximo das aventuras de Ivan o Terrível, é que o consultor Harold Sirkin, do BCG (Boston Consulting Group) traça uma perspectiva diferente. Ele diz que a “consciência chinesa” vem elevando os salários naquele país comunista resultando num custo maior de seus produtos. Com isso os EUA vêm retomando algumas produções que se lhes escaparam entre os anos 90 e 2000 por conta da globalização. E retomando o crescimento. E o crescimento do mais desenvolvido país ocidental há de ser bom para todos. Desde que saibamos negociar.
É um cenário melhor na economia. Mas o espírito das empresas em relação aos seus clientes\consumidores parece estar mais alinhado com a visão pessimista do historiador inglês.

sexta-feira, 23 de agosto de 2013

Dificuldades mercadológicas

Todas as ações, ou ausência delas, que amofinem a vida do consumidor têm resultado direto na imagem das marcas. Por “marcas”, entenda-se neste texto, além daquelas que identificam produtos ou serviços, também o setor público ou aquelas instituições sem fins lucrativos. Vejamos então. O que pode amofinar mais um consumidor do que uma embalagem complicada, que não abre ainda que sigamos as instruções contidas no rótulo? Consumidor de biscoitos (bolachas) salgados, tenho vivência na frustração das tentativas de abrir corretamente alguns pacotes simplesmente puxando a lingueta com uma seta onde está escrito “Abrir”. Em vão. Em geral a fita se quebra antes de completar a abertura e se você não tomou alguns cuidados pode ter uma indesejada avalanche dos primeiros biscoitos e todo aquele farelo indesejável que cai. Conheço apenas uma marca que escapa a isso: a Piraquê, que é fabricada no Rio de Janeiro... E aqueles sachês de molhos que são utilizados em lanchonetes? Sim, aqueles também têm uma indicação “abrir”. Mas aí você tenta, tenta e corre o risco de lambuzar-se de catchup ou mostarda. Ou simplesmente não conseguir abrir. Alérgico que transmitiu parte disso aos filhos, sempre fui um consumidor de solução de cloreto de sódio, sobretudo em tempos secos de outono\inverno, como esse pelo qual passamos agora com menos de 30% de umidade do ar. Pois bem, um desses produtos, que à época vinha embalado em vidro, tinha um anel de alumínio para proteger a tampa. Ah, foram vários cortes nos dedos, em geral sob uma das unhas, na tentativa de abrir aquele negócio. O anel sempre se quebrava antes de romper e era preciso recorrer a um instrumento qualquer para completar a ação. E os manuais de instrução? Melhor não entrar no assunto. Nos tempos atuais, de tantos aparelhos eletrônicos, o descaso com esses folhetos é flagrante. Os fabricantes parecem apostar na curiosidade natural dos consumidores diante dessas novidades. Assim, para que caprichar na tradução ou na impressão completa do manual? “Deixemos a criatividade do brasileiro fluir” devem justificar-se eles... Já nos serviços públicos, não é preciso bater na tecla do mau atendimento na saúde ou na segurança. Fiquemos na sinalização das ruas. Falo da maior e mais desenvolvida cidade do país. Os autóctones andam bem e pouco se dão conta da falta de sinalização. Ah, mas basta que você busque uma área desconhecida como destino e verá, mesmo com o GPS, que não temos placas indicativas de direções. Numa avenida longa, por exemplo, o motorista fica inseguro por não saber quanto falta para chegar ao ponto onde deve mudar de direção. E nem sempre o GPS está atualizado. Pessoalmente, confio mais no GPEsso, parando num posto de gasolina e perguntando. Pior mesmo é quando a placa fica em cima do local da convergência e o motorista não tem tempo de acessar a faixa para fazer a manobra. Ainda sobre os serviços públicos, podemos falar dos banheiros públicos que não existem em São Paulo. Nelson de Abreu Pinto, presidente da Federação de Hotéis Restaurantes, Bares e Similares do Estado de São Paulo, disse uma vez, com razão, que os bares e restaurantes eram os banheiros da cidade. Isso foi dito lá no começo dos anos 90. E nada foi feito nessa direção pelos prefeitos que comandaram a cidade. A mesma pergunta fazem os estrangeiros que visitam o litoral brasileiro: por que as praias não têm banheiros? Ah, somos assim, leves e meio selvagens, fazemos xixi na boa ali na água e o número 2, bem aí não sei... Na próxima vez que você for mal sucedido ao abrir uma embalagem, grave bem a sua marca. E na próxima eleição, lembre-se desses prefeitos e governadores que não fazem a lição como deveriam fazer. Já será um começo.

sexta-feira, 14 de junho de 2013

Das telas às ruas

Em janeiro de 2012 um vídeo promocional de uma construtora no estado da Paraíba, ganhou fama sob o título "Só faltou a Luíza que está no Canadá" e teve, em menos de trinta dias, 4.971.331 acessos na Internet. No mesmo período, o programa Big Brother Brasil, da Rede Globo, levantava uma questão sobre um possível estrupo entre os seus participantes. No dia 19 daquele mês e ano, o conhecido jornalista Carlos Nascimento, então âncora de um telejornal no SBT, disse em seu editorial: “Ou os problemas brasileiros estão todos resolvidos ou nós nos tornamos perfeitos idiotas. Porque não é possível que dois assuntos tão fúteis possam chamar a atenção do país inteiro. Primeiro um programa de televisão em que se discute um estupro, que por si só já é um absurdo, negado pelos dois protagonistas. Segundo uma pessoa que ninguém conhece vira uma celebridade na mídia somente porque o nome apareceu milhões de vezes na internet. Luiza já voltou para o Canadá e nós já fomos mais inteligentes” O desabafo do jornalista faz sentido. São milhões de acessos e divulgação de fatos e episódios sem a menor importância cultural, política ou científica que entopem as redes da Web movimentando, digitalmente, uma geração ávida de acontecimentos e de amigos virtuais. A Internet se tornou um grande fórum de grandes bobagens. E também de coisas sérias. O problema é que as bobagens são numericamente muito maiores do que as sérias. As redes sociais como o Facebook têm sua utilidade. Eu mesmo já resgatei relações de décadas através da rede. Sua capilaridade e comunicação em tempo real que nos alerta pelo telefone que postaram algo que pode nos dizer respeito é algo “futurista”, se pensarmos no início da Internet lá por 1994, aqui no Brasil, quando os chats de conversas eram um grande avanço. Com tantos recursos para uma conexão permanente que permite fiquemos plugados diuturnamente, as últimas gerações entraram num convívio virtual muito maior do que o convívio pessoal. Na primeira semana deste mês de junho de 2013 vi num telejornal que um bar paulistano criou um copo para cerveja ou chope com um “degrau” na sua base. Para que os copos fiquem em pé é preciso que o cliente coloque sob eles o seu aparelho celular, cuja medida é exatamente a do degrau da base do copo. O propósito, segundo os donos do estabelecimento, é que as pessoas se falem pessoalmente e deixem o celular pelo menos no momento do happy hour. Também faz sentido. Não são poucas as críticas gerais às pessoas que ficam teclando o celular enquanto almoçam com amigos ou clientes. Além do mau gosto, isso reflete a falta de educação para com o outro. Volto às últimas gerações. Todo o movimento midiático que vem desde a “Primavera Árabe” e a cobertura de outros protestos mundo afora, vem formando um nexo na cabeça dessa gente que não lê nada em profundidade, não se interessa por temas políticos e cujos interesses são, modo geral, por temas que vão da música do momento aos fatos que ocorrem em suas tribos. Não, essas novas gerações não leem sobre temas como a “Primavera Árabe”. Sabem apenas que “jovens na rua conseguiram derrubar o ditador”. Então quando surge uma chamada para que eles participem e “ajudem a derrubar medidas autoritárias”, eles aderem em peso. A capilaridade da Web mais uma vez se mostra imbatível. Já a informação mais profunda, essa fica sempre de lado. A participação dessas gerações “de corpo presente”, contra “o Estado repressor”, é para eles animadora. Tira-os de suas telas e os leva ao palco. Eles viram tela. Aparecem no Youtube, na TV da família e, sobretudo, estão contra o Estado. Não é ruim a iniciativa. Os jovens saíram daquela luz hipnótica de suas telas e foram para as ruas, para o mundo real. E isso é bom. A questão mais séria aqui é que não sabem a quem estão servindo. Eles não têm ideia dos interesses por trás de tais mobilizações. Os organizadores desses movimentos não estão para negociações. Apenas impõem sua vontade. Sem alegações ou justificativas. Tampouco vão ao cerne da questão: por que as tarifas aumentam? Isso não importa. Ou voltam para os preços anteriores ou “a cidade para”. Existem muitas e boas razões a exigir protestos, em especial na saúde, na educação e na questão da corrupção. Tomem-se como exemplo os gastos para os grandes eventos da Copa e das Olimpíadas. O Brasil precisava disso? E a cidade de São Paulo, agora atrás de sediar a Expo 2020? Não temos outras prioridades? E por que esses movimentos não falam abertamente contra a inflação que cresce no governo do PT e que, em última análise é a responsável pelo aumento das tarifas? Mas os jovens não estão ligados nisso. O movimento nas ruas e a repressão gerada por ele é um negócio “irado”. Eles estão a sentirem-se participantes. Metem o pé nas vitrines, queimam as lixeiras, mandam pedras na polícia. A euforia está instalada. Os jovens, num país despolitizado e sem oposição, (re) começam a viver uma vida mais participativa. É um começo. Uma pena que não saibam a quem servem. E que seus organizadores, em São Paulo, buscam um cadáver contra os tucanos.

segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

A mídia no papel

Está sendo relançada hoje nos EUA, a revista “New Republic”, comprada pelo jovem Chris Hughes, 29 anos, em 2012 quando estava já nos seus estertores. Trata-se de um fato emblemático. A revista foi fundada em 1914 por Herbert Croly e Walter Lippmann e tinha uma linha editorial em defesa da classe média e do liberalismo do governo em suas intervenções dentro e fora de seu país. Em 1917 apoiou o movimento bolchevique e a derrubada da família imperial russa. Mas logo se deram conta da carnificina perpetrada por Stalin e deixaram de falar bem daquele novo regime. Na Guerra fria apoiou “a América”, mas foi combativa contra o Macarthismo, nos anos 1950. Nos anos 60 foi contra a guerra do Vietnã e nas tentativas de derrubada de Bill Clinton, esteve na defesa do então presidente. É uma revista nitidamente democrata. E nunca escondeu isso. Chris Hughes foi um dos fundadores do Facebook e deixou o sócio Mark Zuckerberg, com U$600 milhões no bolso, para dirigir a campanha digital de Barack Obama em sua primeira eleição. A foto dele mostra um menino quase franzino, ao que parece cheio de crenças e intenções. Bem sucedido na campanha de Obama (a primeira no mundo a usar de forma tão agressiva as redes sociais, o Twitter em especial) Hughes tem credibilidade para tentar reerguer esse veículo que foi semanal, passou a quinzenal e estava ultimamente só na Web. Ele a recoloca no mercado em papel e em múltiplas plataformas. A “new” New Republic tem um modelo de assinatura de U$34,97 por ano e que permite o acesso a todo o conteúdo impresso, versão para o celular e mais vinte assuntos da revista, incluindo o acesso ao áudio, uma inovação naquele veículo. Em suas entrevistas o jovem Hughes diz que “muita gente acredita que esse tipo de veículo está fora de lugar na América, que se é periódico é para ser popular e que primeiro tem que ter (ser) de entretenimento ou que, se é muito sério, precisa ter conteúdos bem separados e seletivos.” O jovem empreendedor diz também que acredita que “nossa hiper informação ainda está vibrando, mas não totalmente satisfatória.” “Nós acreditamos que ainda precisamos de um jornalismo que se preocupa em produzir e demandar longa atenção do leitor.” Por “longa atenção do leitor” ele quer dizer “pessoas que se interessam por notícias consistentes e análises críticas”. Isso parece resumir toda a questão desse seu investimento tido como corajoso, num momento em que grandes veículos vêm sendo fechados e quando o jornalismo sério busca caminhos para ganhar interesse de um público que lê pouco, quer ler textos concisos e cujo interesse, lá como cá, pelos grandes temas, parece em segundo plano. Nada ilustra melhor isso do que a postura da revista que ele acaba de comprar: em 2007, passando de semanal para quinzenal, os então editores optaram por uma diagramação que, diziam, era para o “leitor amigo”: grandes fotos e pequenos textos. O aspecto mais importante nessa questão da mídia impressa versus a mídia digital não é, na verdade, o papel ou a periodicidade. Trata-se do interesse pela leitura de algo que efetivamente dê ao leitor uma visão crítica sobre os fatos para que ele possa formar sua opinião. E isso não acontece com notas curtas de 140 GC. Não mesmo.

segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

O turismo que frustra

Angela Klinke é uma jornalista jovem com trajetória de trabalho que lhe garantiu experiência e a creditou para assinar uma coluna quinzenal de “Tendências” no caderno EU& do jornal Valor Econômico. Em 2011 escreveu seu primeiro livro, “Luxo e Crime” (Leya, 2012) que trata de temas como sonegação, falsificação e outros e que teve como base o “Caso Daslu”. Foi uma das idealizadoras da coluna Blue Ship do jornal Valor Econômico. Klinke não é uma jornalista de gabinete. Começou na Jovem Pan como “repórter do ar”, falando do trânsito. Passou pela” “IstoÉ”, “Play Boy” e “Caras” e cobriu vários eventos no exterior. Tem mestrado na área de “marcas de luxo”. Falo de Angela Klinke porque na edição do dia 16 de janeiro de 2013, em sua coluna no jornal Valor Econômico ela escreveu matéria sob o título “A constante frustração de ser turista no Brasil”. A jornalista relata uma experiência vivida na cidade de Salvador, Bahia, onde não funciona o Elevador Lacerda (duas cabines em reforma em plena temporada e 45 minutos na fila para entrar no elevador), não tem vinho branco ou bacalhau no mais luxuoso hotel da cidade no sítio histórico do Pelourinho e uma cidade na qual os próprios garçons recomendam cuidados com os taxistas que “são todos malandros”. Para Klinke isso se repete de Norte ao Sul do Brasil. “Você não vai ser bem informado, não vai ser bem atendido e não vai pagar barato. Para se divertir, vai ter que não pensar nisso.” Entre os problemas que o turista enfrenta no Brasil ela aponta os preços: 7 reais por uma cerveja long neck e 14 reais por um pacote de 200 gramas de batata chip no frigobar do hotel. E para ter acesso às informações históricas e culturais? Esqueça. Guias profissionais não aparecem e no seu lugar meninos mal informados dizem muita bobagem sobre locais e personagens históricos com prejuízo para os estrangeiros que nem dessa suposta informação podem desfrutar. A jornalista aponta ainda a criação dos resorts, há décadas, como uma alternativa para um turismo de melhor nível e que hoje passam também por uma fase difícil de muitos cortes nos serviços e, como resultado, na qualidade. Profissional que entende de luxo e, portanto, de qualidade, Angela Klinke toca num aspecto que muitos profissionais do turismo, agentes públicos e simpatizantes do lulismo, teimam em não enxergar: a má qualidade de nossos serviços. Não se trata de “falta de mão-de-obra treinada”, velho discurso que domina os congressos e eventos da área desde os anos 1980 e que conheço bem dos meus tempos de Senac, em São Paulo e na presidência da Associação Brasileira dos Dirigentes das Escolas de Turismo e Hotelaria (ABDETH). Nada disso. Já registrei aqui as falhas primárias dos lócus turísticos da cidade de São Paulo, por exemplo. Ações ordenadas de limpeza e conservação de praças, são vitais para uma melhor impressão ao visitante. Cansei de vivenciar problemas no entorno de novos centros de convenções em diferentes capitais do país. Pior, problemas também dentro daqueles próprios, com gente ineficiente na operação de equipamentos ou ar condicionado que não funcionava. Empregados mal uniformizados, lixo acumulado nas cidades, praias sem banheiro (por que as praias não têm banheiros, Santo Deus?), comidas suspeitas, garçons e taxistas “espertos”. Os arautos do populismo\nacionalismo dirão que “essa é a cara do Brasil”, que “não somos cheios de manias de limpeza como estadunidenses ou rígidos nos horários como os suíços”. Uma estupidez, com certeza. Tudo o que o consumidor quer é a entrega daquilo pelo qual ele pagou. E não há quem queira pagar por maus serviços, ruas sujas ou larápios institucionalizados. O Brasil não pode ser comparado a desconhecidas ilhas caribenhas onde o risco faz parte do passeio na perspectiva do custo\benefício. Não é assim. E não é, primeiro porque aqui os serviços são caros e segundo porque o conceito do país, mundialmente, vem mudando. E começamos a ser vistos como um país mais comprometido. Mas vêm aí os “eventos do século”: a Copa 2014 e as Olimpíadas 2016. Pessoalmente não me assusto com esses acontecimentos. Acho que a demanda, para a Copa sobretudo, será muito baixa, o que pode atenuar um pouco questões como transporte, trânsito, hospedagem etc. Mas os maus serviços serão os mesmos. Nossa hospitalidade está longe daquela imagem de “brasileiro cordial”, muito longe. Basta que tenhamos um olhar menos complacente com nossos aeroportos, seus serviços e seus preços, os das passagens incluídos. Basta que olhemos sem complacência para as nossas cidades grandes que não têm banheiros públicos e cujas placas de sinalização muito pouco informam. Para sintetizar tudo: o Metrô de São Paulo, o melhor do país, carece de boa sinalização e tem vários pontos cegos, sem câmeras de segurança. Parafraseando a jornalista Kllinke: “Não são necessários 90 minutos de futebol no futuro. O pior já é hoje.”

quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

Reflexões sobre a globalidade

Na década de 1990 quando os sucos Del Valle chegaram ao Brasil, escolheram a TAM como um dos canais para divulgar seus produtos via formadores de opinião. Os voos da TAM, aliás, eram cenários de bons brindes nessa perspectiva, a da promoção de novos produtos. Os sucos tinham um sabor diferenciado, eram densos e agradavam ao consumidor. Em 2013, depois de comprada pela Coca Cola em 2006, a Del Valle é um triste arremedo do que foi nos anos 1990. Os sucos ficaram ralos, aguados e fortemente açucarados, como os demais produtos produzidos pela Coca Cola e em nada lembram aquele sabor tão diferenciado. Não são poucos os romances e filmes de ficção científica que tratam de tempos futuros nos quais a humanidade será dominada por grandes companhias multinacionais ou interplanetárias que abusarão de seus consumidores que, compulsoriamente, terão que se curvar aos seus produtos e serviços. Rollerball, um filme de 1975 dirigido por Norman Jewison e estrelado pelo então galã James Caan, é ambientado em 2018 (estamos perto) e mostra o mundo dominado pelas grandes corporações que substituíram o Estado. O tema é um tipo de jogo de alta letalidade que mistura hockey sobre patins com bolas de aço, motos e outros instrumentos letais numa arena oval e inclinada. A ideia era, com esse esporte, substituir as guerras reais e dar vazão aos ódios da sociedade. No filme Alien, o oitavo passageiro, de 1979, o representante de uma grande corporação que financia as viagens siderais tenta a todo custo manter vivo o monstro que se instalou na nave para leva-lo à empresa, ainda que isso vá custar a vida dos tripulantes. As grandes corporações têm em suas mãos boa parte dos serviços essenciais como os transportes, as telecomunicações, energia elétrica e alimentação. E pouco se lhes importam os processos e denúncias na imprensa e nas redes sociais. As grandes corporações tratam de mudar os hábitos de consumo das sociedades mundo afora. É com tristeza que vemos argentinos, portugueses e espanhóis consumindo cerveja aos montes e deixando de lado a tradição do bom vinho, muito menos nocivo e de menor consumo em razão do menor volume e maior preço. Mas lá está a Inbev comprando as cervejarias, destruindo vinícolas e invadindo as tradições. No começo dos anos 1990 fiquei escandalizado ao saber que a Coca Coca invadia a China de forma brutal tratando de banir daquela sociedade o costume de beber o chá. Coca Coca é muito melhor, ensinavam os demonstradores à porta das fábricas. Do mesmo jeito, com caminhões abertos e apresentações teatrais, a Coca Cola correu a Mama África nos anos 1970\80 divulgando o seu xarope escuro. Mas nada foi mais assustador do que saber que eles, da Coca Cola, distribuíam geradores e geladeiras para os Tuaregues consumirem o refrigerante em seus acampamentos, desprezando o chá quente, um hábito, como na China, milenar naqueles desertos ao Norte do Continente Africano. Nessa segunda semana de janeiro de 2013 fico sabendo que os Pub londrinos estão virando supermercado express. Sim, as cadeias de supermercados compram os Pub já sacrificados pela crise europeia e aproveitando a licença que as casas têm para a venda de bebidas, agregam outros produtos e vão tomando conta dessa tradição inglesa. Pub vem de public, ou seja, um local público onde TODOS podem frequentar, diferente dos tradicionais clubes masculinos ingleses onde só entram os associados e seus convidados. É uma transformação parecida com aquela que as Lojas Americanas fizeram no Brasil com a rede de locadora Blockbuster. As multinacionais de cervejas, a Inbev a pior delas, ao tempo em que sufocam outras marcas e difundem o seu produto associado ao esporte (os cigarros fizeram essa estupidez também até os anos 1980), geram também um movimento “revolucionário” de cervejas artesanais que eclode em todo o mundo. Esse movimento pode ser a redenção dos Pubs e cervejarias. Claro, podemos falar também da produção de medicamentos e da compra de todos os serviços de saúde por grandes multinacionais do ramo. Mas isso seria muito trágico logo nas primeiras semanas no ano. Agora, só a título de warm up: quando tivermos apenas duas operadoras de planos de saúde no país e a sua entender que “não procede o diagnóstico” que seu médico lhe fez para extrair um tumor altamente suspeito num órgão vital, a quem você vai recorrer? Será que dá tempo de chegar ao STF?

sábado, 24 de novembro de 2012

Natal, aqui e lá

Fui ao supermercado. Era uma visita rotineira de reabastecimento semanal. Mas algo estava diferente. Havia um sorriso no rosto das pessoas que não era usual. Não, não se trata de minha imaginação. O sorriso estava lá, movimentando-se na boca das moças do check out e dos meninos que ajudam os clientes a empacotar suas compras. É o mês do Natal. Lá estavam os acessórios da decoração natalina, mesclados aos produtos à venda, com cores e cara de Natal. E é só o começo. Vi árvores naturais e artificiais, Papai Noel, bonecos, bolas, guirlandas e tudo o mais para a decoração da data cristã. Lá estavam as bandejas de frutas secas e castanhas prontas e embaladas, como sempre estiveram no decorrer do ano. O que diferenciava essas bandejas era a decoração natalina e às vezes uma bandeja com material mais ousado. Embalaram as frutas frescas “para a ceia”, quando ainda não terminou o mês de novembro. Estão certos. É preciso criar a atmosfera. Eis a razão para as alegres músicas natalinas que tomam conta do ambiente. Vi pelo menos dois casais que gingavam com seus carrinhos ao som das músicas. Um deles bem jovem e o outro bem acima dos cinquenta. Claro, é Natal. Não, nesse supermercado não havia um nicho para o bom velhinho. Os nichos estavam reservados para os vinhos sudamericanos, alguns produtos enlatados e panelas de ferro modernosas. Sim, dirão, e qual a novidade no clima natalino? Trata-se de uma estratégia que melhora a cada ano desde a segunda década do século XX. E os estadunidenses foram os mais rápidos nesse processo de aperfeiçoamento. Foram eles os primeiros a criar o papel especial para os presentes natalinos com motivos da data, os primeiros a oferecer os nichos do Santa Claus para que as crianças pudessem falar com o velhinho e pedir um dos presentes de suas lojas, os primeiros a promover as decorações animadas em suas vitrines, muito embora os ingleses também mantivessem o costume desde o século XIX. Andar pelo comércio de Nova York às vésperas do Natal (melhor, desde o Thanksgiven) é uma experiência pela qual deveriam passar todos os que estudam ou trabalham em qualquer atividade de marketing. É preciso ver de perto a Christmas Season. A atmosfera natalina é surpreendente. As vendedoras bem humoradas usam bijuterias com motivos de Natal: unhas com desenhos de bonecos de neve, brincos com renas ou Santa, broches com estrelas de presépios. As músicas que embalam as compras fazem fundo com o aroma de canela que lojistas borrifam sem parar nos ambientes. Nas ruas grupos cantam canções típicas para angariar fundos ou mendigos imitam o ho ho ho do bom velhinho e arriscam alguma canção para que moedas caiam em suas latas. Porteiros bem vestidos em seus sobretudos estão firmes às portas de seus prédios, sob um aquecedor acolhedor. O cheiro da comida de rua é uma mistura gostosa com castanhas assadas e pretzels quentes, mais os bagels, o salmão defumado, os sanduíches de pastrami, o hot dog com muita batata e as fatias de pizza compradas nas “vitrines” espalhadas pelas ruas. E esse cenário não se limita a Manhattan, senão por toda a cidade. O Natal é a data máxima do consumo, embora os cristãos mais ortodoxos se queixem de que o mundo anda esquecido do aniversariante do dia 25 e mais focado no marketing. Devem ter razão já que as pessoas compram com sofreguidão nessa época (ah, basta ver as invasões às lojas nos noticiosos da TV, como na Black Friday). Criar o clima natalino parece mais fácil do que promover campanhas ao longo do ano para motivar compras, claro. Mas nem por isso carece de menor ciência. O varejo estadunidense pensa o ano todo no Natal e suas campanhas. Cada detalhe que possa motivar a compra é pensado, examinado e avaliado. Muito antes da temporada natalina já se pensa nas campanhas de descontos que sucederão à grande data, descontados os dias das trocas dos presentes que não deram certo. Empresas se especializaram nas decorações da época e têm todo um esquema de montagem, desmontagem e armazenamento do material. Muitos especialistas estão envolvidos nesse tipo de trabalho: arquitetos, decoradores, engenheiros, pessoal de TI, operários que trabalham nas alturas, eletricistas, seguranças e um sem fim de profissionais. O Natal em NYC é um atrativo turístico, como começa a ser em São Paulo. Dei uma olhada sem muita seleção e vários sites vendem de tudo nessa bela temporada. Vejam, por exemplo, esse http://www.nyctourist.com/xmas_in_nyc.htm Estatísticas, históricos de vendas, cenários econômicos e estimativas de vendas orientam o grande varejo que trabalha o Natal com olho no Valentine´s Day, na Páscoa, o Dia das Mães e por aí vai. Lá como cá, os profissionais responsáveis pelo marketing celebram o Natal com um olho nos presentes e outro nos resultados. E se sairão bem (a gente espera), obrigado. Feliz Natal!

sexta-feira, 9 de novembro de 2012

São Paulo não é NYC

Em setembro passado fui com três amigas para um passeio dominical turístico no centro velho de São Paulo. O programa incluía uma missa com canto gregoriano no mosteiro de São Bento, um brunch no Café Girondino e uma visita à Mostra Impressionista no Centro Cultural Banco do Brasil. Fomos de Metrô, a partir da Vila Madalena. Tudo lembrava muito um desses passeios que se faz no exterior. Metrô vazio, limpo e rápido. Mas a partir da chegada à estação São Bento a paisagem começou a mudar. O entorno da estação estava sujo. Em frente à igreja do mosteiro, um canteiro com a terra esturricada continha plantas ornamentais recém-plantadas e também secas e sofridas, via-se com um olhar leigo. O prédio do mosteiro é imponente. E a entrada de sua igreja também. Nas grandes capitais do mundo, igrejas antigas e seu entorno recebem tratamento especial. Tudo é limpo, tem placas indicativas, serviço de informação e policiamento. Não tenho o que registrar quanto ao último item. Todo o centro velho estava bem policiado, com oficiais e suas motos. Mas a sujeira e o descaso com a área pública era notório. Curiosidade: vimos duas equipes de filmagem em locações no centro velho naquele dia. Em julho, acompanhando uma prima carioca, visitei o Museu da Língua Portuguesa e depois o mercadão. A viagem de trem, a partir da Barra Funda durou sete minutos e tudo estava absolutamente limpo. Ao descer na estação não encontramos uma boa sinalização, mas os seguranças nos deram informações corretas para chegarmos ao museu. E foram eles que nos ensinaram também como chegar a pé ao mercadão. (E se eu falasse apenas o francês?) As ruas não têm sinalização indicativa da direção do Mercado Municipal para os pedestres, donde se conclui que a prefeitura não vê aquela região como um roteiro turístico. O entorno do mercadão também merece reparos. Não há lixo esparramado, é bem verdade. Mas poderia ser mais limpo e melhor sinalizado. É importante que no estacionamento e nas faixas de pedestres tenhamos pessoas uniformizadas prontas para dar informação. O mercado municipal é um dos pontos turísticos de maior demanda na cidade de São Paulo. Faltam também, no ambiente interno, placas indicativas e um balcão de informações onde alguém fale, pelo menos, inglês e espanhol. Japonês também seria importante. Também no mercadão o policiamento é grande e inclui a Guarda Civil Metropolitana. No feriado de Finados a visita foi ao MASP. Dessa vez não foi preciso usar o Metrô. Com a cidade vazia e outros programas no roteiro, o trajeto foi mesmo de carro com a possibilidade de estacionar na rua. Desnecessário comentar sobre a beleza do “maior vão livre da América Latina”, como se tratou por muito tempo aquele espaço do museu ali na Avenida Paulista. Mas pela imponência daquele lócus cultural, o desleixo chegava a ser agressivo aos olhos. O chão na calçada da frente do prédio e o piso sob o grande vão livre estavam sujos. Mendigos circulavam no lado Oeste do espaço e policiais conversavam na face Norte. A sensação de sujeira era presente e incomodava. Era um dia cinzento e convidativo para passeios dessa natureza. Na fila, olhando aquela paisagem carente de asseio comentei com minha parceira sobre o descaso e de seu reflexo no turismo. Não custava, raciocinei eu, passarem logo pela manhã uma água nesse chão, com uma daquelas máquinas de jato forte. Tudo ficaria mais agradável. Esse é o melhor museu do Brasil. - Sim, disse ela. Mas São Paulo não é Nova York. Esquece...